No caminho da sala para o quarto, ela quis ser o suficiente. Acarinhava a parede fria com as costas da mão pequena, seus pés descalços, ruidosos ao andar. Vendo-o encolhido na cama estreita, desejou poder mais. O sol teimoso esgueirava-se pelas brechas que a cortina lhe permitia e invadia o quarto com o calor das manhãs daquele verão. Preferiu não acordá-lo; um momento de sossego podia ser tão raro. Ainda tinham alguns minutos. Mesmo fitando suas costas, podia adivinhar os lábios entreabertos exalando o sono, os braços cruzados frente ao peito. Sua respiração breve lhe denunciando medos.
Acompanhou seu contorno sob os lençóis, sorriu. Ele era tão seu, e nem sequer a pertencia. Cada parte deste corpo que lhe era tão familiar agora podia, num instante, estar entregue a outra. Desejou poder ver seu rosto, desenhar os contornos dos seus olhos com os dedos, brincar com sua barba da maneira que o irritava. Aprendera com o tempo o que lhe incomodava, mas certos hábitos resistiam ao esquecimento. Pensou em ir escovar os dentes, tamanha era a sua insegurança, mas decidiu-se por ficar ali, esperando.
Esgueirou-se na cama ao seu lado, tentava encontrar uma posição confortável sem acordá-lo. Aninhada às suas costas, deslizou um braço ao seu redor, encaixou sua mão entre as dele, sentiu seu cheiro permeando o travesseiro. Abraçava-o procurando qualquer brecha pela qual pudesse entrar; fazer parte dele como ele fazia parte de si. Riu-se. Gastaria assim manhãs inteiras se a ansiedade lhe permitisse. Só queria ser o suficiente. Tentou dormir novamente, mas os sons da casa vazia ecoavam em seus ouvidos.
Numa sequência sem qualquer lógica aparente, fazia planos para o dia, para a semana, para os anos que se seguiriam. Pensava no que faria se um dia perdesse isso, momentos assim, ele ao seu lado. Planejava deixar recados dentro de seus livros, para que um dia, quem sabe, ele os encontrasse e lembrasse como era bom quando estavam juntos. Pois haveria sempre lembranças às quais recorrerem, mas a possibilidade de olhar para trás e vê-los como desperdício lhe amargurava, e preferia assim mudar de sonho.
Podia imaginar um dia igual àquele, anos à frente, quando não precisariam mais de desculpas infantis para ficar juntos. Um dia quente de dezembro, deitados em um colchão, quando tudo estaria exatamente igual, mas todos diriam que estava diferente. Puxou-o para si. Aquela era uma perspectiva da qual gostava. Já não procurava brechas pelas quais entrar - ela queria absorvê-lo. Só quis ser o suficiente. Trazê-lo para tão perto que pudesse sarar suas feridas, fazê-lo enxergar a si mesmo por outros olhos – pelos seus olhos.
Um tencionar de dedos chamou a sua atenção – respondeu. Ele começava a despertar. Preguiçosamente mexia os pés, procurando sua perna. Ela então começou a cheirar seu pescoço, fazendo cócegas, obrigando-o a virar para encará-la. Desde o início, prometera a si mesma que não desistiria, e por isso passara por alguns momentos difíceis; contudo, sabia que todos eles valeriam à pena, se cada um dos seus dias começasse com aquele sorriso.
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