Tuesday, June 29, 2010

Cartas Errantes VI

Amigo meu,

Não lhe falarei com nostalgia ou sequer raiva. Senti apenas por esses dias um desejo forte de por fim a tudo o que estava inacabado em minha vida. Cansei de abandonar meus projetos pela metade. Pensando bem, talvez não tenha sido eu quem desistiu deles, talvez tenham todos desistido de mim. É desagradabilíssimo pensar assim, mas devo considerar a realidade. Logo, como você já deve ter percebido, esta é a nossa carta final.
Reconheço o papel da sua ausência nessa decisão de findar a troca de textos. É patético demais – até para mim – escrever para ninguém, como tanto fiz. De que vale o registro de uma vida para ser lido por ninguém? Não pense que me rebelo contra a nossa parceria, talvez o simples ato de não fazê-lo exponha a minha fraqueza de forma absurda. Já não me lembro do que tratamos meses atrás e vejo agora o quão inocente fui ao me expor nestas linhas ingratas. Bem verdade que já eu não disponho do tempo necessário para manter em dia qualquer forma de comunicação saudável. Duvido da minha capacidade de dialogar constantemente e em meio à dúvida me calo. Eu já deveria estar acostumada a essa altura.
Declaro então o fim de uma relação que nunca existiu realmente. Delicio-me em imaginar que tudo foi verdadeiro quando simplesmente fomos nós. Sem máscaras, seguros por trás de nossos disfarces. Confesso que sentirei saudades da nossa franqueza fajuta, mas não me arrependo – não por agora.
Luto para estender essa carta que poderia ser resumida em uma palavra.
Fim.

Sunday, February 28, 2010

Cartas Errantes V

Cartas Errantes IV

Pequenino,

Cobro mais uma vez da sua paciência e sei que você não me negará o perdão. Ando tão ocupada nessas últimas semanas... Envergonho-me ao confessar que os únicos momentos livres do trabalho que tenho são dedicados ao meu sono. Ah, como sou preguiçosa! Quisera eu ter maior disposição para enfrentar os infortúnios da vida, hahaha. Você não acreditaria na quantidade de livros que tenho que ler. Creio ter-me referido ao último como um “paciente”, mas logo lhe esclareço. Não sou médica e nem gostaria de ser. Não há em mim a menor vocação para tratar de problemas fisiológicos. Até mesmo a psique é mais minha amiga...
De qualquer maneira, angustiou-me imensamente esse curto período durante o qual não lhe escrevi. Talvez à medida que nos correspondemos, eu esteja conversando mais comigo mesma do que lhe dando atenção. Por isso, sou-lhe grata e, ao mesmo tempo, peço que me desculpe. Não pretendo me demorar mais, nada de lamúrias, vamos à sua carta.
Que carta deliciosa! Percebo o quão facilmente sou levada por suas palavras e não posso me queixar. É bom ter alguém disposto a nos ceder uma palavra de carinho nas horas mais insultadas, assim, gratuitamente. Mesmo que não concorde totalmente com a forma eloquente que você descreveu a minha história, alegro-me ao saber que os detalhes da interpretação não lhe escaparam. Como quanto à incerteza da menina sobre o seu futuro. A mistura de medo e ansiedade de cruzar aquele caminho. E, finalmente, o arrependimento pelo tempo perdido, a invalidez daquele momento por ela estar só. Você é doce ao se declarar a minha protagonista e confesso que ri alto ao ler o seu grito de desespero. Posso lhe ver claramente fazendo isso.
A Noite é realmente uma metáfora à solidão que se apodera da pequena indefesa. À sua volta, tudo continua claro, vivo, intocado. Porém, aos seus olhos, tudo aquilo se foi. Alguém a agarra, tentando ajudá-la, mas o pânico já lhe tomou o juízo e ela perde o controle. Não estou muito certa de que rumo a história tomará, mas creio que não me prolongarei muito mais. É necessário por um fim a essa loucura! Enviar-lhe-ei uma cópia completa dela quando estiver pronta.
Agora, posso lhe falar o que tanto me tem afligido ultimamente.
Como anda, meu querido amigo? Espero, sinceramente, que eu coração lhe tenha cedido alguns momentos de paz, finalmente. Não sou audaz o bastante para afirmar lhe conhecer tanto assim, mas as suas sutilezas, o seu modo dócil o torna fácil de ler, pequenino, e isso é bom nas pessoas. Existem aqueles – e aquelas, principalmente – que tentem manter algo para si, uma aura de mistério que – quase sempre – se mostra superficial e tola. Contudo, não me leve a mal, exibir-se demais também está fora de questão. Todos merecemos guardar nossos segredos, afinal, é delicioso rir de algo que só você sabe.
Meu dia hoje foi interessante. Não encontrando um livro que eu queria, decidi procurá-lo na internet. Agora, passo meus dias lendo na frente do computador. Muitos dos que passam por mim e me vêem inerte em frente à tela me crêem desleixada, como se estivesse gastando o meu tempo vendo trivialidades. Infelizmente, meus amigos, eu estou lendo um livro como qualquer outro de conteúdo relevante – não que eu vá me dar ao trabalho de lhes dizer isso realmente. Nunca refletira a respeito, mas identifico aí um traço curioso da minha personalidade – além da minha mania de fazer auto-avaliações constantes e, por vezes, imparciais. Isto deve ter algo a ver com o perfeccionismo e a minha capacidade de divagar sobre milhares de assuntos a partir de um. Então, voltando. Desde pequena criei o costume de simplesmente deixar aquelas perguntas mudas sem resposta – como no caso do computador. Permito eu as pessoas tirem suas próprias conclusões quando não as considero dignas de uma explicação decente ou quando não encontro meios de me expressar de forma apropriada. Penso muito de mim às vezes, não é? Meu Deus, hahaha...
Sinto mais uma vez pela demora em lhe responder e, agora, ainda mais pela pequena extensão dessa carta. Espero que suas feridas sarem cada vez mais rapidamente. Tenho saudades, muitas.

Carinhosamente, L.

Tuesday, February 16, 2010

Cartas Errantes III

http://denovocaraspalidas.blogspot.com/2010/02/cartas-errantes-ii.html

Pequenino,

Não quero que pense que me esqueci de você – de modo algum! Esta carta apenas me levou um pouco mais de tempo para ser composta... Antes de responder à sua carta propriamente, quero lhe contar um sonho curioso que ocupou meus pensamentos em algum momento da noite passada. Talvez por causa do livro que eu lhe falei a respeito, - e que, por sinal, acabei há poucas horas – foi um sonho atípico, fantasioso. Eu sequer exercia um papel significante nele, apenas observava e, como narradora, adivinhava os sentimentos das personagens. Ele começava mais ou menos assim:
“A clareira era pequeníssima, mas à frente se estendia uma trilha igualmente bela. Diriam que as flores delicadas que se estendiam por ela vibravam nas cores mais variadas, entretanto, agora, todas as tonalidades estavam amenizadas pelo tom azulado daquele crepúsculo. A noite nunca chegava. Parada ao início da trilha estava uma jovem de cabelos compridos e ondulados. Seus cabelos claros, neste momento, faziam-se escuros. Os punhos fechados deixavam salientes os nós dos dedos e encerravam dentro dela suas emoções. Os mesmo olhos que escondiam segredos exerciam em qualquer um os mesmos efeitos. Suas íris eram contornadas por um verde escuro que se aquecia até encontrar a pupila, ganhando tons de um marrom muito claro. Com elas, podia enxergar as gotas de água que a umidade do ar formara nas plantas. Contudo, nada daquilo lhe servia agora.
Planejara cada passo a ser tomado. Antecipara as paisagens a serem vistas e as sensações que cada uma produziria em seu corpo. Pensava nas pessoas que conheceria e como se adequaria para viver entre elas sem causar incômodo e arrancando até um pouco de prazer da situação. Um pouco não, muito. Ela queria aquela nova vida por inteiro. Como o ancião cuja saúde fora debilitada e lhe resta apenas esperar pela paz, ela tinha certeza que seu destino a aguardava para ser cumprido. Desejara seguir aquele caminho com tamanha sede que ao – finalmente – senti-lo em suas mãos, hesitara.
Passos cautelosos – e não delicados – levaram-na para frente. À medida que se deixava penetrar na floresta, caíam por terra as suas expectativas. Sua visão se tornou turva e, de repente, desejou retroceder, mas algo lhe impedia de virar para trás. Não sabia o que era e teve medo. Medo de que fosse tarde demais para admitir a sua derrota – ela ainda não lutara. A verdade era dura e o arrependimento por todas as coisas que deixara de fazer se abatia sobre a pequena implacavelmente. Esquecera seus amigos e sua família na hora de fazer planos. Nunca questionou sua capacidade de viver sem eles. A filha pródiga não tornaria a casa dessa vez. Partiria para sempre, admitindo que errara. Mas era tarde demais até o arrependimento.
Sentiu algo lhe golpear na face e, por reflexo, levou a mão ao local atingido. O corte não fora profundo, mas um filete de sangue escorria por sobre sua bochecha. Desejou um espelho para melhor avaliar o arranhão, mas logo riu por saber impossível encontrar algum ali. Carregaria a partir daquele dia a marca sutil, porém notável, das decisões tomadas cegamente. Limpou a mão suja de sangue no vestido e pretendia seguir em frente quando, novamente, algo lhe deteve. A dor dentro dela era tão grande que a fez curvar-se para frente, os braços envolvendo seu próprio corpo. Estava só. Era uma estranha sensação que em vez de lhe preencher o coração e torcer o estômago, retirava-lhe todas as forças, esvaía-lhe o sangue. Tudo girava ao seu olhar. As árvores cujos troncos estiveram cobertos de um musgo verde durante anos agora derretiam em ondas constantes e perturbadoras. Um calafrio lhe subia a espinha e seu cérebro parecia ser comprimido. Ela respirava com dificuldade, até que o pânico foi além do que podia suportar.
Durante longos segundos, nada viu se não a escuridão. Contemplou os resquícios de luz que brilhavam projetados por sua retina nas pálpebras fechadas. Podia sentir a grama espetando suas bochechas e não se surpreendeu ao deduzir o que acontecera. Pôs-se de pé rapidamente e recomeçou a andar. Poder-se-ia dizer que para alguém de fora, a cena permanecia inalterada, como se o desmaio fosse apenas um breve intervalo e ela agora retomasse sua jornada. Mas sob a sua perspectiva, tudo estava diferente. A noite finalmente chegara para ela. Tentava, inutilmente, ver as árvores em meio às sombras que se formavam. Girava no escuro como um planeta satélite sem seu ponto de equilíbrio, sem direção. Aos tropeços, ela seguiu pela trilha. Pedras e galhos na trilha lhe machucavam os pés, porém, já não era capaz de reagir. Não via nada, não sentia.
Outro par de braços agarrou os seus e uma voz firme soou ao longe, mas ela preferiu ignorar. Afinal, o que haveria de ser tão importante? Nada. Os mesmos braços tentaram envolvê-la e, cegamente, ela repeliu-os. O medo a assolava novamente e sua respiração voltou a falhar. Tateando no desconhecido, buscando um lugar para se apoiar. O vento sibilou fortemente por entre as árvores derrubando folhas mortas, chuva se aproximava. Pouco a pouco, a audição também se fora. Era como se estivesse submersa em petróleo líquido e algo lhe puxasse cada vez mais fundo. Gradualmente, suas forças cediam. Faltava pouco para que se afogasse. Ela que um dia fora bela, hoje trazia as feições contorcidas, apáticas, inexpressivas. Aqueles mais fortes que os seus lhe agarraram com firmeza e puxaram para o indefinido. Cansada como se não dormisse há semanas, ela decidiu se entregar à superioridade daquele que lhe dominara. O torpor era tentador demais para que pudesse resistir. Trôpega, apoiou-se contra um corpo quente que lhe envolvia e tentava acompanhar o ritmo de seus passos ou, ao menos, sentir as batidas de um coração que já não podia ouvir. Seria incapaz de dizer por quanto tempo andaram daquela maneira, mas antes que pudesse perceber, o restante de seus sentidos falhou e a inconsciência foi aceita de bom grado”
.
Querido, espero não lhe confundir ou atrapalhar, mas creio ter me excedido na narração deste devaneio. Duvido que a história da pequena aventureira termine assim – fato. Entretanto, deixarei o final para outra hora, pois é necessário lhe responder devidamente.
Não é meu desejo ultrapassar os limites da sua vida pessoal, mas – se possível – peço que me diga o que tanto o aflige para que assim lhe possa oferecer ajuda. Deduzo que o problema parta de seu coração – eles quase sempre vêm de lá. Então, sem saber realmente o que acontece, tenho apenas um comentário a lhe fazer. Muitas pessoas passarão por nossas vidas e é necessário aprender a deixá-las partir. Entretanto, aquelas que valem a pena, pessoas especiais mesmo, hão de permanecer – vivas ou mortas. A saudade não é um mal necessário, mas é um com o qual devemos aprender a conviver. E é com segurança que afirmo: A dor vai passar. Ela sempre passa. E com você, não será diferente. Resta-nos apenas aguentar. Aguente firme, pequenino, pois de você e do seu bem estar depende a felicidade de muitos outros – inclusive a minha.
Agora, tenho que ir.

Fique bem, L.

Saturday, February 13, 2010

Cartas Errantes, o Início

Querido amigo,

Tive um dia difícil hoje. Após acordar e constatar que não havia ninguém em casa, gastei as preciosas horas do meu dia lendo. Li como se todo o prazer no mundo estivesse aprisionado em algum lugar daquelas páginas amareladas. Adoro como mudamos de posição inúmeras vezes sem sequer interromper a leitura, ou quando ficamos aborrecidos por ter de levantar os olhos para responder a alguém ou fazer qualquer outra coisa. Por meses - pelo menos para Eragon - eu li. Ouvindo as pessoas que passavam fazendo barulho, rindo, cantando, conversando alto - eu li. Quando chegou gente em casa, mesmo assim - eu li. Faço isso desde pequena, adoro me perder em histórias que não me pertencem. Mas eu estava lendo, pelo amor de Deus!

Acho engraçadas essas expressões que se referem a Deus e na minha insistência em escrever Seu nome em letra maiúscula. A Oprah pagou para nos obrigar a fazer o mesmo quando nos referirmos ao nome Dela - loser.

Bom, voltando a minhas aventuras neste dia de festa. Eu adoro muitas coisas, sabe. Adoro como a cidade vibra na minha porta, como as pessoas estão predispostas a serem simpáticas umas com as outras, a rirem de qualquer bobagem. Mesmo que uma porção de álcool esteja envolvida e que nem todos fiquem com esse espírito alegre, eu queria que todos os dias fosse assim. Voltando ao dia animador. Liguei para uma amiga, mas ela não estava mais ao meu alcance. Selecionei um álbum para ouvir no meu iPod e desativei a seleção aleatória. As músicas não eram tristes, mas o cantor as entoava de forma tão sofrida que me deu vontade de chorar - o que é raro com uma música. Enquanto questionava os meus hormônios, tirei os fones de ouvido e guardei o iPod.

Sem saber o que fazer, considerei a ideia de sair para as ruas, perder-me em meio à multidão. Mas ir sozinha estava fora de cogitação e não ando no clima de sair com a minha mãe. Decidi então ligar o computador e ir passear em London town. Estou perfeitamente ciente do quão patética posso ser, mas a ansiedade é insuportável! Eu sinto saudades de Londres. Saudades de um lugar no qual nunca coloquei os pés! Isso é - no mínimo - estranho, não é?

Peço desde já que não se surpreenda com as minhas exclamações, pois há muito perdi o medo de usá-las. Às vezes, é bom rir da própria piada. (Que susto! Achei que tinha perdido toda a minha carta agora, hahaha). Voltando, mais uma vez, ao meu dia... Depois de andar por Londres durante horas, decidi lhe escrever, viu como é importante?
Sei o quão incomum lhe deve ser alguém o chamando de "querido amigo" sem nunca ter lhe visto. Escrever para alguém assim, não é algo com o que eu esteja acostumada... Mas a perspectiva de me comunicar com alguém assim, sem as barreiras criadas pela familiaridade, é tão excitante! Tenho me sentido só ultimamente, mesmo estando sempre cercada por pessoas.
Creio que devo ir agora, mais um paciente me aguarda. Foi muito bom falar com você.

Yours sincerely, L.

Thursday, January 14, 2010

Claro

Vocês querem a verdade? Muito bem, então.

Somos frágeis, todos nós. E não se pensem melhores por admitirem suas fraquezas, isso não é nada! Somos incapazes de justificar nossos atos sem atacar outras pessoas, mesmo que não seja intencional. Coloquemos as cartas na mesa. Não existe maneira de fugir daquilo que já foi feito, não se tem como dialogar abertamente sem repetir algumas palavras, existem expressões que não se podem traduzir ou sequer explicar satisfatoriamente.

De que adianta escrever muito se ainda não existe sobre o quê escrever? Palavras e mais palavras organizadas para encobrir uma vida curta ainda, vazia de experiência. A fantasia quase nunca é o bastante, queridos. Produzir um nada e criticar o que é feito, também não é novidade. Os erros se repetem o tempo inteiro. Eis o motivo do meu silêncio. Recuso-me a escrever o que não é verdade, descrever cenas nas quais nunca estive presente.

Tenho que voltar a ler Vinícius.