Sua mente cansada gritava pelo sono, seu corpo frio implorava por conforto. O que mais desejava do mundo era um abraço. Mas as pernas não paravam, sabia que era mais prudente descansar quando chegasse ao seu quarto; fugir do frio era necessário e quanto mais rápido caminhasse, melhor. A neve derretia nas calçadas de uma rua imunda qualquer e encharcava suas botas gastas. Pensou em parar para comprar um novo par; correu o quanto pôde, mas a lojinha que sempre esteve aberta fechara mais cedo. Praguejou sentindo as meias molhadas e o buraco cada vez maior na bota esquerda. Tough day.
Suas narinas queimavam. Os ossos doíam dentro das luvas. O pensamento vagava longe. Um homem com uma cadela ao lado lhe cruzou o caminho. Dizia que era uma cadela sem ter como saber. Dizia muitas coisas sem saber. Foi abatida pela nostalgia quando a cadela lhe encarou, e quis chorar quando ela se recusou a desviar o olhar enquanto seu dono a arrastava para o outro lado. Por pouco não desatou a rir sozinha, conter o choro era mais importante. Nunca fora simpática a cenas dramáticas. Colecionava algumas poucas em sua vida e fazia questão de ignorá-las.
O sinal estava verde, mas não vinha nenhum carro e a exaustão lhe ameaçava perigosamente. Quis rir novamente; não podia desmaiar de novo, não aqui, não sozinha. Achava graça em como uma situação tão absurda se tornara realidade para ela. Em segredo, ela se questionava quantas pessoas se preocupavam com a possibilidade de cair inconscientes por aí. Olhou ao redor rapidamente enquanto pensava nas possíveis reações se ela viesse a desmaiar ali. A impressão de que todos seguiriam com suas vidas sem dispensar sequer um olhar ao seu corpo no chão lhe fez arrepiar.
Tentava controlar a respiração por trás do cachecol para não
embaçar os óculos. Era patética, precisava admitir – o fazia com um sorriso
torto que guardava para si. Pensava na conversa que deixara para trás há duas estações
de metrô. Algo sobe pessegueiros e religião. Deveria ter prestado mais atenção, mas
as luzes da cidade são tão bonitas e a neve que caía preguiçosamente como
poeira lhe atraiu o olhar.
Desejou que ainda fosse dia, que não tivesse trabalhado até
tão tarde, que tivesse guardado um pouco da limonada ou um pedaço de chocolate
para comer no trem. Era pulsante a tentação de entrar naquele
restaurante aconchegante de cabines vermelhas e mesas de alumínio com cheiro de álcool, sentar, pedir um
prato quente ao garçom mal humorado. Mas exaustão que lhe restringia os pensamentos
e destinava toda energia restante àquela caminhada que lhe levaria ao seu
quarto de hotel vazio, à sua cama feita com lençóis macios e qualquer pedaço de pão que ainda
houvesse no armário.
Enquanto seguia abrindo seu caminho pela lama e a pequena
multidão que esperava para atravessar a rua, lembrou-se d"o homem no metrô".
Referir-se-ia a ele daquela forma durante muito tempo. Não tinha vontade de dividir com
ninguém aquela experiência nauseante, porém, não conseguia afastar o nojo que
sentira – sentia – das pessoas amontoadas olhando pela janela, ansiando por saber do
que se tratava. Is he dead yet? O
turista oriental com a câmera no pescoço tirando fotos discretamente para não
parecer mais cruel do que os outros em volta. Precisava levar uma recordação para a família. It stinks... Tentava esquecer-se do cheiro de laranjas podres, do
corpo trêmulo do homem a seus pés e daquela sensação esmagadora de impotência.
A esquina que guardava sua porta finalmente apontava no horizonte da
avenida e ela apertou o passo. Seus ombros perdiam pouco a pouco a batalha
contra a dor que a mochila carregada de livros lhe afligia. Imaginava o quão
cômica seria sua imagem refletida nas vitrines pelas quais passava sem
dispender um olhar. A mochila quase tocando a parte de trás dos seus joelhos, o cachecol enrolado
sobre seu rosto até a altura dos olhos, o capuz do casaco lhe cobrindo as
orelhas e os cabelos desgrenhados, os olhos vermelhos de cansaço, as luvas
escondidas dentro dos bolsos.
Quis ajudar os rapazes, moças, senhores e
senhoras que ficavam do lado de fora das estações, distribuindo jornais em troca
de algum dinheiro. Lembrou da moça que cantava "bom dia" aos passantes mais rudes com um sorriso no rosto e uma pontadinha de dor. Não fazia ideia de quantas horas eles passavam expostos
àquele tempo tentando convencer os passantes a tirarem as mãos dos bolsos e
pegarem um jornal. Sentiam todos o mundo frio fora de suas roupas, mas apenas
alguns podiam contar com braços quentes perto de si. Queria ajudar muita gente, nunca fazia nada. No fundo se acreditava incapaz de fazer qualquer
diferença.
Passou pela porta principal. Agradeceu
baixinho a ajuda de um rapaz que segurou a segunda porta aberta para que
passasse. Por pouco não lhe deu um abraço e beijou-lhe as faces com os olhos
marejados de pura breguice e auto-piedade. Riu-se, cumprimentou estranhos no
elevador. Amaldiçoou-os por serem mal educados e barulhentos, mais ainda se descessem no mesmo andar que ela. Cortou conversa
com um homem atarracado de sotaque estranho. Ele só queria ser amigável, e ela se arrependeu depois por ser mal educada com ele. Deu os passos finais pelo corredor
de paredes vermelhas. Apoiou a mochila no chão. Duas voltas na chave. Every day is just the same.