Friday, January 30, 2015

passatempo

Passo as horas até dormir
Os dias se arrastam
Um após o outro
Testando a minha sanidade

Tento sair, mas ela não deixa
Me puxa de volta pra cama
- O dia está frio lá fora
Deito em seu seio e me deixo embalar

A tempestade nunca veio
Sequer o sol deixou de se esconder
Talvez eu tenha trocado os horários
Talvez até a culpa seja minha

Não é educado falar dessas coisas
Mas a vida arde em minha cabeça
Tanto onda quanto partícula
Sem sentido e sem descanso

A sensação de desintegrar
me
a
pa
vora

Thursday, January 29, 2015

menina

     Toda vez que a gente ia ao shopping, ela me comprava um beijinho junto com o seu sanduíche. Eu sentava no banco ao seu lado e ficava imaginando o que existia por trás daquelas paredes. O gosto daquele beijinho é o que me vem à boca até hoje toda vez que eu penso nela. Não esqueço nem o cheiro que ficava mesmo depois que eu tirava o cravo. Eu tinha o meu próprio papel naquele ritual. Parecia que partilhávamos os mesmos gostos e interesses. Durante muito tempo foi raro me surpreender com alguma incoerência.
     Adorava as tardes de terça, quarta ou quinta-feira quando ela decidia que iríamos ao cinema assistir qualquer coisa. Vivemos aventuras pequenas e grandes; dividimos inúmeras gargalhadas; fomos cúmplices de uma vida inteira. Adorava também as noites em que saíamos para dançar. Ela me guiava ao mesmo tempo em que me ensinava a guiar - tanto que nunca soube dançar de outra maneira. Queríamos fazer um pique-nique no parque, mas choveu naquele dia. Acabamos comendo miojo na praia, de baixo de um lençol molhado. O vento queria nos derrubar na areia.
     Com o passar dos anos, aprendi a ler seu rosto de um jeito que eu jamais conheceria outro. Os lábios apertados, perigo. O nariz franzido, carinho. Os olhos marejados faziam (fazem) o meu peito comprimir. Na verdade, não era nem difícil prever tempestades e arrependimentos. A vi ser grande e ficar pequenina nos meus braços. Sempre quis poder lhe dar mais de mim, mas isso significaria deixar de viver. Ela também sabia disso. Me detestou e me admirou quando precisei me afastar. Talvez tenha sempre tido a certeza de que eu voltaria. Fizemos planos para nós, como não poderia deixar de ser. E quando comecei a fazer planos só meus, preferi não mencioná-los, tive medo de magoar.
     E ela ainda era menina quando nos conhecemos, quase sempre esqueço disso. Quase posso sentir seus medos, e recriar suas ilusões. Não tenho ideia do que faria em seu lugar. Na minha inocência e ingratidão, devo tê-la privado de muitos dos seus sonhos; mas gosto de acreditar que tivemos sonhos só nossos também.
     Agora toda vez que eu vejo aquele beijinho na vitrine me dá vontade de comprar, só pela lembrança, mesmo que eu não goste mais.

Wednesday, January 21, 2015

se a tristeza fosse gente (de outras vidas I)

Se a tristeza fosse gente,
ela seria mulher
e seria mulher bonita.

Sedutora, mas simples.
Porque a simplicidade
na verdade é complicada.

Já a vejo em toda sua facilidade
de cabelos soltos ondulando
sobre os ombros em todas as direções.

A blusinha sem mangas,
sentada num banco
com um baseado na boca.

Já ouço sua voz grave e confortável,
carregada como o sono
que abraça o corpo cansado.

E ela é sedutora,
é difícil fugir dessa menina.
Tão difícil quanto juntar os pedacinhos e levantar.

Ela lhe faz querer ir embora,
tudo bem pode ir,
só para rir quando você voltar.

Ela já tem nome
só lhe falta descobrir
que viver é possível.

Wednesday, January 14, 2015

dormência

I

Queria poder guardar tudo numa caixinha.
O que há de doce e bonito,
o que há de sujo e doloroso.
Para poder não mais sentir
não precisar e não querer,
sequer lembrar.

A distância não diminui
só traz mais dor e solidão.
Tudo se faz como as lágrimas
que às vezes não consigo prender.
Me escapolem dos olhos,
entre os dedos e as palavras.

Se sentir fosse mais fácil,
não precisaria de anestesia.
Da dormência que me preenche os dias
dos sonhos em cor que iluminam noites,
fazendo da inconsciência um alívio
e a fumaça respirável.

II

Quis ver a música ecoar no vazio,
mas ele disse que o som não se propaga no vácuo.
Ficou então ela toda presa dentro de mim,
ressoando dentro das minhas paredes,
escoando por minhas veias a nossa melodia

A imaginação é uma droga.
Há dias em que me engano
e acho que consegui domar essa dor.
Mas ela sempre volta, pula fora da caixa
enquanto eu me desgasto por nós dois.

Eu choro, pra ver se sara.
Eu fumo, pra ver se apaga.
Eu seguro, pra ver se estanca.

Thursday, January 8, 2015

tube

Propositadamente devagar,
nos arrastamos sobre os trilhos
Oscilamos como um só
Vibramos juntos
Balanço de um lado para outro
Seguimos a dança

Cuidado com o bêbado
que equilibrista dança junto à porta
Não obstrua a passagem
Flui a multidão
Se desdobra pelos canais
Escorre por debaixo da terra

Wednesday, January 7, 2015

how to

Se você me quisesse ler,
talvez até eu deixasse
só pra achar graça
de ver você se perder
nesse emaranhado de mim

Só peço
que não me leve tão a sério
não pense demais nas minhas bobagens
pois delas já me farto eu
nesse monólogo de louco

Tem coisa aqui de muitos anos
tem coisa aqui de amanhã
e é mesmo pra achar graça:
a vírgula é minha,
eu (não) ponho aonde eu quiser

O tempo passa e a gente se perde
se envergonha
se esbarra em outras versões de si
que fazem aquelas ex
parecerem brincadeira

Mas de que vale uma vida inteira pra ser lida por ninguém?