Subordinada a mim mesma
Às minhas ideias,
Meus sentidos,
Meus medos
E minhas nóias.
Ao meu corpo.
Somos matéria
Sem espaços vazios
Dividindo fluidez
Você comigo
Feliz
tudo brincadeira
Tuesday, December 8, 2015
Friday, November 27, 2015
Insone
Eu quero dormir
Estou tentando, de verdade
E sem remédio dessa vez
Sem neblina
Só o peso do meu corpo
Cansado sobre o colchão
Mas o coração inquieta
Talvez as cicatrizes já sejam mais
Do que eu consigo aguentar
Talvez a culpa não seja minha
A culpa não é minha.
Talvez não seja de ninguém
A cabeça manda,
mas ele não vem
No passa nada
Não se preocupa não
Vou tentar dormir aqui
De novo
Estou tentando, de verdade
E sem remédio dessa vez
Sem neblina
Só o peso do meu corpo
Cansado sobre o colchão
Mas o coração inquieta
Talvez as cicatrizes já sejam mais
Do que eu consigo aguentar
Talvez a culpa não seja minha
A culpa não é minha.
Talvez não seja de ninguém
A cabeça manda,
mas ele não vem
No passa nada
Não se preocupa não
Vou tentar dormir aqui
De novo
Thursday, October 29, 2015
Rosa-estrela
A vida tem dessas
De uma hora estar ali
E depois não mais
Como aquela beleza solar
Que alguém nos tirou
Ela tinha dessas
De sempre atrasar
O mundo não ia sair do lugar
Por uns minutinhos a mais
E a gente esperava sem dor
Ontem foi,
hoje não mais
Tento colar os pedaços
Do que não vai mudar nunca
E do que nunca mais será
E pro que não tem resposta,
A gente canta
De quem não vai voltar,
Tenho saudade
De uma hora estar ali
E depois não mais
Como aquela beleza solar
Que alguém nos tirou
Ela tinha dessas
De sempre atrasar
O mundo não ia sair do lugar
Por uns minutinhos a mais
E a gente esperava sem dor
Ontem foi,
hoje não mais
Tento colar os pedaços
Do que não vai mudar nunca
E do que nunca mais será
E pro que não tem resposta,
A gente canta
De quem não vai voltar,
Tenho saudade
Saturday, September 12, 2015
indo
Sempre seremos
Assim patéticos
Não adianta
Querer o corpo
Querer alguém
Querer que passe
Seguiremos iguais
Cansados de nós
Cansados dos outros
Tentando não cansar
Sobrevivendo
Assim patéticos
Não adianta
Querer o corpo
Querer alguém
Querer que passe
Seguiremos iguais
Cansados de nós
Cansados dos outros
Tentando não cansar
Sobrevivendo
Saturday, August 29, 2015
À minha melhor,
A minha amiga ia ser médica. A minha amiga ia ser médica. A minha amiga ia ser médica.
Ela ia fazer o bem de tanta gente.
Dói tanto.
Ela ia fazer o bem de tanta gente.
Ela ia envelhecer e ficar igual à mãe. Ela ia ser madrinha de qualquer coisa que eu tivesse. Ela ainda tinha tantas gargalhadas guardadinhas só esperando. Ela ia passar na minha casa e nós íamos falar de dietas enquanto comíamos chocolate. Ela ia casar ou se separar e namorar de novo, quantas vezes ela quisesse. Ela ia sempre tomar a iniciativa. Ela ia correr, dar um mergulho e tomar uma água de coco todos os dias, se pudesse. Ela ia voltar a surfar um dia, eu acho. Ela ia passar por muito perrengue e eu me sentiria culpada por não poder fazer mais. Ela ainda ia corrigir muita gente que escreve seu nome com um ene só. Ela ia pedir o relatório completo de todas as vezes que eu fosse a uma consulta, por mais besta que fosse. Ela ia passar mais um monte de noites sem dormir tomando café e estudando pra prova. Ela ia também dar muitos cochilos durante a tarde e principalmente antes de sair à noite. Ela sempre ia chegar atrasada nos meus aniversários. Eu ia achar graça todas as vezes que ela me contasse os casos mais nojentos achando super interessante. Ela ia sentar no ponto de ônibus e conversar com qualquer um que sentasse ao seu lado. Ela ia conversar tanto com tanta gente e fazer o dia de qualquer um melhor. Ela ia me ligar qualquer dia pra falar besteira, só porque tava afim. Ela ia curtir muitos carnavais dançando na rua. Ela ainda ia me ouvir reclamar muito da vida. Ela ia conhecer o mundo. Por obrigação, ela ia visitar o meu primeiro apartamento e porque era linda, levaria um bolinho pra gente comer. Eu visitaria o dela também e a gente ia falar do passado e de como é engraçado ver os outros crescendo. Ela ia me abraçar da próxima vez que nos encontrássemos. Eu ia sentir o cheiro do seu cabelo e abraçá-la bem apertado.
Eu não vou mais ver a minha amiga. E ela não vai ser médica como tanto queria.Dói tanto.
Thursday, August 20, 2015
quanta besteira, menina
Respira fundo
Respira leve pra ninguém ouvir
Alivia dores no chão do quarto
Se faz de morta pra ninguém te perturbar
e pra não perturbar ninguém
que o tempo se arrasta,
como areia molhada debaixo das ondas
quebrando impotente debaixo dos pés
E o aperto no peito
pode sim ser passageiro
e pode não ser
Deve ser só impressão
Não deve ter tanta importância
- cuidado pra não escapar -
Se tiver, deixa de ser
Você já sabe o que vão dizer
ou o que não vão
O que serviu pra um, não serve pra outro
O que agrada a todos, não me serve mais
Respira leve pra ninguém ouvir
Alivia dores no chão do quarto
Se faz de morta pra ninguém te perturbar
e pra não perturbar ninguém
que o tempo se arrasta,
como areia molhada debaixo das ondas
quebrando impotente debaixo dos pés
E o aperto no peito
pode sim ser passageiro
e pode não ser
Deve ser só impressão
Não deve ter tanta importância
- cuidado pra não escapar -
Se tiver, deixa de ser
Você já sabe o que vão dizer
ou o que não vão
O que serviu pra um, não serve pra outro
O que agrada a todos, não me serve mais
Que seja tudo fantasia, por favor
Enquanto isso,
fica caladinha,
bem comportadinha,
sem incomodar.
Sunday, August 16, 2015
el general
Não é sempre que eu tenho paciência pra García Marquez, não é sempre que ele tem paciência pra mim. A gente se entende na nossa solidão milenar, mas eu sempre o perco na minha ansiedade. Corro em círculos procurando a saída do seu labirinto, mas o general anda vagaroso, sem pressa, enfermo de sua glória que lhe esvai a vida.
Wednesday, August 12, 2015
gravidade e a falta de
Continuamente presa à terra
Sinto ela me querendo à distância
Me puxando cada vez mais perto
Força dentro de mim
Me atraindo sem parar
Gosta de brincar com meus sentidos
Me deixa tonta, me joga no chão
E mesmo assim nunca é o bastante
Me quer sem roupa, de olhos fechados
Oscilando em fluidez
Sempre mais forte, sempre pra baixo
Escorro sem parar
Como o vidro nos meus sonhos
De tão intenso reflexo, analítico
Em todas as cores e em cor nenhuma
Queimo
Fogo na terra, brotando da poeira
Das folhas secas em marrom e amarelo
Craquelando do céu ao chão, de ponta-cabeça
Sem jamais perder raiz
Sinto ela me querendo à distância
Me puxando cada vez mais perto
Força dentro de mim
Me atraindo sem parar
Gosta de brincar com meus sentidos
Me deixa tonta, me joga no chão
E mesmo assim nunca é o bastante
Me quer sem roupa, de olhos fechados
Oscilando em fluidez
Sempre mais forte, sempre pra baixo
Escorro sem parar
Como o vidro nos meus sonhos
De tão intenso reflexo, analítico
Em todas as cores e em cor nenhuma
Queimo
Fogo na terra, brotando da poeira
Das folhas secas em marrom e amarelo
Craquelando do céu ao chão, de ponta-cabeça
Sem jamais perder raiz
Tuesday, August 11, 2015
de tanto não parar
Só vou me deixar roubar
Se me levar pra ver o mar
pular comigo pra dar sorte
e ver o dia amanhecer
Quem sabe o universo ouve
o seu pedido tão bonito
mesmo que assim, sussurrado
bem no pé do meu ouvido
Às vezes faço que não ligo
pra que ele se chegue mais
Olho de canto de olho
só esperando que me chame
E essa nossa ciranda é uma confusão
de não parar e não seguir
mas eu não me importo de dançar
vai ver que um dia a gente chega
Se me levar pra ver o mar
pular comigo pra dar sorte
e ver o dia amanhecer
Quem sabe o universo ouve
o seu pedido tão bonito
mesmo que assim, sussurrado
bem no pé do meu ouvido
Às vezes faço que não ligo
pra que ele se chegue mais
Olho de canto de olho
só esperando que me chame
E essa nossa ciranda é uma confusão
de não parar e não seguir
mas eu não me importo de dançar
vai ver que um dia a gente chega
Friday, April 17, 2015
Tamed
Uma, duas, três
voltas de corda
- Firme? Domada
Caged
Trapped
Tamed
Tira
Põe de volta
Aperta o nó
Morde aqui
Quero me perder
Mas só consigo me prender
Vistos de longe, somos nada
No flash forward, somos nada
Desfecho da vida:
nada
Just passing through
Não importa o quanto tente
Rói os dedos pra ver se solta
Presa num emaranhado de troncos
- ou sonhos -
Insustentáveis,
Demasiado frágeis
Imitando floresta no deserto do real
voltas de corda
- Firme? Domada
Caged
Trapped
Tamed
Tira
Põe de volta
Aperta o nó
Morde aqui
Quero me perder
Mas só consigo me prender
Vistos de longe, somos nada
No flash forward, somos nada
Desfecho da vida:
nada
Just passing through
Não importa o quanto tente
Rói os dedos pra ver se solta
Presa num emaranhado de troncos
- ou sonhos -
Insustentáveis,
Demasiado frágeis
Imitando floresta no deserto do real
Wednesday, April 15, 2015
norfolk building
entrou pela porta que estava aberta e virou à direita. ia passar direto, mas deu a volta e abriu a porta verde que mais parecia parede do que porta. subiu os degraus estreitos sem ver o que vinha depois da curva. se esbarrou com umas três pessoas que se apertavam pelo corredor cheio de sombra. seguiu em frente e desceu a escada em caracol até a frente do elevador que nunca tinha funcionado. passou por salas vazias e outras com cara de importante. os degraus rangiam sob suas botas úmidas.
o sistema de aquecimento não era dos melhores, mas queimou sua mão em um radiador tão perdido quanto ela. as luzes gostavam de ascender e apagar sem pedir permissão. talvez fossem os fantasmas do velho hotel pedindo para não serem esquecidos. deve ser muito triste desaparecer. muito triste ou muito libertador. brincar pelos corredores sem se preocupar em fazer as tábuas do chão ranger. talvez nada fosse de todo bom.
no departamento de filosofia tinha a foto de um anão na janelinha. quis saber o que ele estava fazendo ali, como quem encontra um professor no shopping, mas continuou. curva para a esquerda, mais três portas e um corredor. subir dois degraus, desviar das pessoas, descer uma rampa. no meio da escada tinha um banheiro, achou aquilo engraçado. pelo menos um banheiro, tinha.
acreditava que aquele prédio fora um dia um hotel. imaginou em que parte do hotel estaria. com certeza não eram quartos de hóspedes. se fossem, aquele hotel era muito ruim. se estivesse na cozinha, daria muito trabalho de levar e trazer os pratos, a comida esfriaria no caminho. só via banheiros em todos os cantos. banheiros propícios a brincadeiras que ninguém admitia imaginar.
espiou pela janelinha na porta de uma das salas. quem tinha tido a ideia de colocar janelas em portas? elas deviam ser uma coisa ou outra. portas deveriam ser para esconder e janelas para mostrar. mas aquelas portas-janelas pedras-e-plumas eram muito estranhas. o chão da sala também não era só chão, era um emborrachado pras pessoas da moda tirarem os sapatos e se sentarem com as pernas cruzadas.
chegou no outro prédio, desceu as escadas interrompidas e saiu pela porta do terceiro andar. virou a esquerda na sala de orações. desviou o olhar da janela-porta por um respeito qualquer à religião dos outros. seguiu em ziguezague pelos corredores com luz de hospital. abriu a porta do auditório, subiu até a terceira fileira pra não ter que pedir licença a ninguém. sentou e olhou o papelzinho amassado com seus horários daquele dia. estava no lugar errado.
Monday, April 6, 2015
quero
Se precisar implica
necessidade
E exclui
vontade
Então não preciso, quero
Quero muito
mas sem obrigação
Quero com cada pedacinho de mim
Quero mais
do que jamais quis qualquer coisa
Quero você
Faço questão
necessidade
E exclui
vontade
Então não preciso, quero
Quero muito
mas sem obrigação
Quero com cada pedacinho de mim
Quero mais
do que jamais quis qualquer coisa
Quero você
Faço questão
Friday, April 3, 2015
fuso horário
Naqueles dias de trinta e cinco horas a gente fazia o possível pra ficar bem. Acordei meio perdida; o sol me chamava por trás das cortinas azuis. Tentei achar uma posição confortável pra voltar a dormir, mas não adiantava. Você já estava acordado; lhe dei bom dia e me enterrei na sua bochecha. Ficamos preguiçando na cama por um bom tempo; disso a gente entende bem. Rolei pra um lado e pro outro enquanto a gente trocava umas palavras tortas. A cama era pequena demais pra nós dois e eu não consigo ficar parada. Quando a gente finalmente levantou pra tomar café, já eram quase onze. Você ria da minha preguiça, mas também não queria sair de casa. A gente podia pedir comida, só mais uma vez...
Trouxe o leite pra cama e comemos em silêncio. Fiquei lhe assistindo passar um monte de fotos antigas no celular, sem olhar nenhuma direito. No banho a gente se atrapalhava com a falta de espaço e ria brincando de passar sabonete no outro. Não lembro a música que cantamos (nosso repertório é muito eclético), mas ainda ouço a sua voz de quem perdeu a vergonha e ainda lhe vejo dançar com os punhos fechados na frente do peito. Ainda tem sabão no braço, amor. Limpou o umbigo? O banheiro era pequeno, mas a gente dava um jeito. As latas de desodorante vazio ainda ficavam esquecidas sobre a pia. Intimidade até que tem graça.
Durante a aula fiquei lembrando da vez que fomos acampar. Você de pé no ferry vendo o dia nascer enquanto eu lhe assistia sonolenta do banco do carro. Gente estranha pra gente teorizar. Só a nossa barraca naquele gramado - às vezes eu ficava com medo de noite. Mesmo sendo só dois, a gente tinha sido muito feliz. Crianças brincando de ser gente grande. Sendo perto ou longe da praia, com sol ou com chuva. A música no carro era muito boa. Os banheiros eram muito longe e o resto é segredo.
Assistimos um filme que eu sabia que você não ia gostar, mas que mesmo assim tinha paciência de sentar comigo. Quando ficava muito chato, você me fez carinho me chamando pra um beijo. Eu ri. Já de tardinha, sentados num banco olhando pro nada, fizemos planos pras horas, pros dias e pros anos seguintes. Eu queria um cachorro, você disse que me dava um peixe. Você queria ver um show, eu já estava pensando em comprar os ingressos. O silêncio nos engolia de vez em quando. No que você tá pensando?
Voltamos pra casa andando pelas ruas menores, dar a volta valia a pena. Seus dedos suavam e ficavam gelados entre os meus, mas você apertava mais forte pra ter certeza que eu não ia escorregar. Não deu pra ver o sol se pôr no mar naquele dia. A nossa coleção precisava ser renovada em breve. Passamos as horas fazendo cócegas e falando besteira. Mais tarde a gente ia fumar um e deitar pra sonhar junto, só que à meia noite, o sono me venceu.
Desejei boa noite, lhe dei um beijo e virei pra dormir. Do outro lado do mundo, você acordava.
Thursday, April 2, 2015
só mais um
- eu até leria into the wild, mas ando lendo outras coisas...
o seu desinteresse era pungente. ele não contava dias e horas como nós. em vez disso, marcava o tempo lembrando de acontecidos. que governo estava no poder, como era sua relação com as necessidades do povo. ele fazia florzinhas de madeira com as próprias mãos e dava de presente pra qualquer moça bonita ou rapaz. ele era nada. engraçado como é o desinteresse que nos obceca (e somos todos obcecados por nós mesmos). a sua própria pretensão de parecer mais do que se é era o que me fascinava.
a gente conversava enquanto assistia um velho passar empurrando um carrinho de mão vazio pela estrada de terra. o ar era seco, o sol era quente. não tínhamos fome, só dúvidas e nenhum propósito. éramos beat e sertão. éramos praia e asfalto, sede e furdunço.
me disse que faria caridade, caridade de quê? num sei. ele queria ser modernoso, modernista, antropofágico. tirava fotos sem roupa, escrevia seus poemas num caderninho e fumava cigarros baratos. sua escrita era estranha - ele mostrava o caderninho pra todo mundo em troca de uns elogios vazios. a caneta preta que usava sempre borrava seus rabiscos e dificultava a leitura.
todos os dias ele acordava e se convencia de que era bom, mas nós dois sabíamos a verdade. ninguém é de todo bom e no fundo somos mesmo meio medíocres. não sei quem era mais patético numa mesa de bar; ele fingindo entender de cinema francês ou as meninas que sempre são as mesmas brigando por atenção. eu deveria ter inveja dele e achava graça de não ter. falava de anarquia, mas dava aula de inglês pra comprar fralda pros filhos.
Wednesday, April 1, 2015
(não) arrisco dizer
Minha boca cheia de palavras
que me engasgam e me sufocam
que brincam de esconde-esconde a me torturar
não sei se digo, não sei se calo
não sei se cuspo, não sei se engulo
Presas sempre num meio-termo:
nem dentro, nem fora
nem ausente, nem presente
elas não me deixam em paz
Pior que elas brigando dentro de mim
só o silêncio do outro lado.
que me engasgam e me sufocam
que brincam de esconde-esconde a me torturar
não sei se digo, não sei se calo
não sei se cuspo, não sei se engulo
Presas sempre num meio-termo:
nem dentro, nem fora
nem ausente, nem presente
elas não me deixam em paz
Pior que elas brigando dentro de mim
só o silêncio do outro lado.
Wednesday, March 25, 2015
contínuo presente
Depois de dias de um confinamento voluntário (o ser humano é bicho engraçado), resolvi sair pra dar uma volta. Lembrei do canteiro em que vi uma senhora plantando tulipas e decidi correr até lá pra ver se elas já tinham crescido. Mas o mundo continuava igual ao que era. Ainda não havia nada das tulipas além da plaquinha torta. Aquilo me lembrou Janet.
Janet que queria ser Stein. Que chegou no primeiro dia com um capacete de filme dos anos 30 na cabeça e as bochechas muito rosadas por causa do frio. Janet que se enrolava toda vez que tirava o cachecol e punha os óculos. Janet que morre de medo de um dos filhos (adultos) ser atropelado andando de bicicleta. Me lembrou do dia em que ela, em meio a anedotas fantásticas de outras vidas, nos olhou quase com pena e disse que nada de extraordinário aconteceria com a gente hoje, e provavelmente nem amanhã. Disse que tendemos a viver as nossas vidas assim, sem brilho, numa repetição sem fim (ao menos algo é infinito).
Eu quis lhe responder que ela tinha acontecido no meu dia e aquilo já era bom o suficiente. Mas eu nunca falo nada mesmo, calada fiquei. É verdade que a maioria dos dias não tem nada de extraordinário. Mas temos sempre o vai que, o pode ser, o quem sabe. E se isso não é o suficiente pra me tirar de casa todos os dias, descubro que a repetição também tem beleza. O mesmo bom dia, a mesma música no fone de ouvido, o mesmo refrigerante com gosto de casa. Acho que no fim a gente não consegue deixar de se surpreender, de sentir, de se impressionar nem com a coisa mais certa dessa vida.
Naquele dia não tive tulipas, mas fiquei olhando os barcos no rio e os pássaros que parecem mais pipas sem se mexer no ar. Quis me convencer de que só o sol estar brilhando já era novidade o suficiente. Melhor ainda era pensar que, em casa, a mesma cama de todas as noites me esperava. Quis dar um abraço em Janet e lhe dizer que ela estava certa e duplamente errada, mas só fiquei rindo sozinha imaginando como um abraço a assustaria. Um abraço extraordinário.
Saturday, March 14, 2015
à deriva
É como a lucidez que segue a exaustão. Cada nervo está desperto, ainda que esgotado. As pontinhas formigam, o peito se abre em cores que não existem em pintura. Eu estou sempre no meio, dançando comigo mesma em três corpos diferentes. Liguei o chuveiro e deixei a água cair quente sobre os meus cabelos, mas ela não corria rápido o suficiente para acompanhar os rios que fluem dentro de mim.
Geralmente é como mergulhar, cair no sono estando acordada. Braços abertos e olhos fechados. O tempo se fragmenta, os movimentos ficam limitados porém infinitos. Dancei sozinha sem sair do lugar. Piruetei em pensamento porque as pernas estavam muito teimosas.
O ar começou a faltar e pensei cinco vezes até fechar o chuveiro. Abri a porta rezando pro cheiro sair. Só que eu não rezo. Nunca botei em ninguém a responsabilidade sobre a minha vida. Eu que me vire. Encarei meu reflexo no espelho e ela sorriu pra mim. Acendi uma luzinha, escancarei a janela e fechei as cortinas. Não queria me dividir com ninguém. Lembrei do celular, vai que, né. A cama pareceu muito longe e o chão me abraçou. Meus pensamentos de ego inflado ganham autoridade e acham que podem mandar no resto do corpo. As coisas deixam de ser coisas e viram linguagem. Brincar com os códigos me assusta um pouco. Eu fico tão linguista.
Pensei em me levantar, mas logo esqueci enquanto me levantava. Pulei na cama com os cabelos ainda molhados e me deixei à deriva sentindo o mundo girar devagarinho ou muito rápido dentro de mim.
Geralmente é como mergulhar, cair no sono estando acordada. Braços abertos e olhos fechados. O tempo se fragmenta, os movimentos ficam limitados porém infinitos. Dancei sozinha sem sair do lugar. Piruetei em pensamento porque as pernas estavam muito teimosas.
O ar começou a faltar e pensei cinco vezes até fechar o chuveiro. Abri a porta rezando pro cheiro sair. Só que eu não rezo. Nunca botei em ninguém a responsabilidade sobre a minha vida. Eu que me vire. Encarei meu reflexo no espelho e ela sorriu pra mim. Acendi uma luzinha, escancarei a janela e fechei as cortinas. Não queria me dividir com ninguém. Lembrei do celular, vai que, né. A cama pareceu muito longe e o chão me abraçou. Meus pensamentos de ego inflado ganham autoridade e acham que podem mandar no resto do corpo. As coisas deixam de ser coisas e viram linguagem. Brincar com os códigos me assusta um pouco. Eu fico tão linguista.
Pensei em me levantar, mas logo esqueci enquanto me levantava. Pulei na cama com os cabelos ainda molhados e me deixei à deriva sentindo o mundo girar devagarinho ou muito rápido dentro de mim.
Friday, March 13, 2015
passarinho
Um dia eu quis me passarinhar
Só pra poder voar pra sua janela
Passar pelo buraco da rede
E te espiar enquanto dormisse
Pra poder rir mais uma vez
Da sua boca aberta
Dos seus olhos que me enduvidam
Do seu cabelo emaranhado
Pra poder sentir inveja
Do travesseiro que você não larga
Do lençol que lhe abraça
De quem pode lhe cheirar
Pra poder cantar e lhe acordar
E ver a sua cara de sono
E ouvir você resmungar
E virar pro outro lado pra dormir de novo
Mas eu não sou passarinho
E a sua janela é muito alta
E o seu prédio é muito longe
E isso era pra ser um poeminha feliz
Só pra poder voar pra sua janela
Passar pelo buraco da rede
E te espiar enquanto dormisse
Pra poder rir mais uma vez
Da sua boca aberta
Dos seus olhos que me enduvidam
Do seu cabelo emaranhado
Pra poder sentir inveja
Do travesseiro que você não larga
Do lençol que lhe abraça
De quem pode lhe cheirar
Pra poder cantar e lhe acordar
E ver a sua cara de sono
E ouvir você resmungar
E virar pro outro lado pra dormir de novo
Mas eu não sou passarinho
E a sua janela é muito alta
E o seu prédio é muito longe
E isso era pra ser um poeminha feliz
Monday, March 9, 2015
brechó do que pode ser
Tô vendendo planos
para-sempre e para-agora.
Nessa agonia de não caber dentro de mim,
de transbordar o tempo todo.
Alguns são de se sonhar só,
outros são de sonhar junto.
Um emaranhado de vontades
que muito se contradizem.
São inúmeros, lado a lado condenados,
presos à condição de irrealidade.
Mas, de vez em quando, um escapa,
Vira gesto, vira palavra.
Do imaginário, sai de corpo nu.
Se despe de toda ilusão,
revela rachadura, manda olhar pra trás.
Só o incerto lhe envolve.
E se o querer for de verdade,
e eu quiser mais que ideia:
quiser carne, cheiro, voz.
Será que a gente se infinita?
para-sempre e para-agora.
Nessa agonia de não caber dentro de mim,
de transbordar o tempo todo.
Alguns são de se sonhar só,
outros são de sonhar junto.
Um emaranhado de vontades
que muito se contradizem.
São inúmeros, lado a lado condenados,
presos à condição de irrealidade.
Mas, de vez em quando, um escapa,
Vira gesto, vira palavra.
Do imaginário, sai de corpo nu.
Se despe de toda ilusão,
revela rachadura, manda olhar pra trás.
Só o incerto lhe envolve.
E se o querer for de verdade,
e eu quiser mais que ideia:
quiser carne, cheiro, voz.
Será que a gente se infinita?
Sunday, March 8, 2015
chilicando
muito leio e nada escrevo,
nada crio e nada cresço.
(odeio rima)
o processo todo é exaustivo:
pesar cada palavra,
repetir
uma por uma em minha cabeça
até encontrar um som
que me satisfaça.
queria escrever como quem transa.
sem pensar, só sentir.
ou então pensar no outro,
pensar com o corpo.
até que cresço.
mas cansada. exausta de mim.
nada crio e nada cresço.
(odeio rima)
o processo todo é exaustivo:
pesar cada palavra,
repetir
uma por uma em minha cabeça
até encontrar um som
que me satisfaça.
queria escrever como quem transa.
sem pensar, só sentir.
ou então pensar no outro,
pensar com o corpo.
até que cresço.
mas cansada. exausta de mim.
Thursday, March 5, 2015
ter e desejar
Desacelera comigo
Viaja comigo
Me faz cafuné no meio da tarde
Canta pra mim, mesmo que eu ria
Dança comigo pela sala
Me deixa deitar no seu peito e lhe sentir respirar
Cheira o meu pescoço e me toca só com a boca
Faz carinho nas minhas costas
Ri comigo de qualquer bobagem
Me lembra - mais uma vez - do quanto a gente se gosta
De como a gente é bom no que faz
Anda devagar ao meu lado
Me segura pra eu não cair
Dorme comigo
Apaga a luz antes de deitar
Viaja comigo
Me faz cafuné no meio da tarde
Canta pra mim, mesmo que eu ria
Dança comigo pela sala
Me deixa deitar no seu peito e lhe sentir respirar
Cheira o meu pescoço e me toca só com a boca
Faz carinho nas minhas costas
Ri comigo de qualquer bobagem
Me lembra - mais uma vez - do quanto a gente se gosta
De como a gente é bom no que faz
Anda devagar ao meu lado
Me segura pra eu não cair
Dorme comigo
Apaga a luz antes de deitar
Saturday, February 28, 2015
das viagens chatas
Te vi flutuar no vazio.
Astronauta com cara de bobo
ao perceber que o mundo inteiro
cabe na pequeneza dos seus olhos.
Se aproximava aos saltos
e já avistava a nossa rua.
Rompeu barreiras em sua queda lenta.
Incendiou a atmosfera da varanda.
Esquecemos a porta aberta
e deixamos uma mosca entrar.
Sua camisa ondulava no ar
que o riso me roubava.
Na noite estrelada da parede do quarto
ela viu movimento, adivinhou ventania.
O azul se tornou onda, o amarelo, explosão.
Dormia de olhos abertos, mesmo sem sono.
Ela fragmentou palavras
e descobriu que primeiro tudo é verbo.
Sentiu o gosto de cada letra,
ouviu amplificada a sua própria voz.
Seu coração dispara em pensamento,
as pernas pedem para crescer,
o cérebro também sente cócegas,
a boca seca, o ar é rarefeito.
A barraca virou barco,
o quarto virou casa,
o universo grande demais,
talvez a gente seja mesmo consciência.
Astronauta com cara de bobo
ao perceber que o mundo inteiro
cabe na pequeneza dos seus olhos.
Se aproximava aos saltos
e já avistava a nossa rua.
Rompeu barreiras em sua queda lenta.
Incendiou a atmosfera da varanda.
Esquecemos a porta aberta
e deixamos uma mosca entrar.
Sua camisa ondulava no ar
que o riso me roubava.
Na noite estrelada da parede do quarto
ela viu movimento, adivinhou ventania.
O azul se tornou onda, o amarelo, explosão.
Dormia de olhos abertos, mesmo sem sono.
Ela fragmentou palavras
e descobriu que primeiro tudo é verbo.
Sentiu o gosto de cada letra,
ouviu amplificada a sua própria voz.
Seu coração dispara em pensamento,
as pernas pedem para crescer,
o cérebro também sente cócegas,
a boca seca, o ar é rarefeito.
A barraca virou barco,
o quarto virou casa,
o universo grande demais,
talvez a gente seja mesmo consciência.
Sunday, February 22, 2015
expandir
E quando você acha
que não vai mais aguentar
que vai romper,
que vai rasgar,
o corpo alonga,
se desdobra
sobre a irrealidade daquela dor
e a respiração se expande,
se aprofunda.
que não vai mais aguentar
que vai romper,
que vai rasgar,
o corpo alonga,
se desdobra
sobre a irrealidade daquela dor
e a respiração se expande,
se aprofunda.
é do mar (ou uma cerveja antes do almoço)
Estava então tudo parado
numa trégua entre o tempo e eu.
Outra tarde quente de frente pro mar
e a maresia nos abraçando.
Braços e pernas entrelaçados,
meus dedos brincando nos seus cabelos,
minha boca sorri sedenta de você,
meus olhos mergulham e a mente se deixa levar.
Uma tarde com a pele salgada,
olhando o mar zombar da praia.
Rindo dos outros e de nós mesmos,
contando as cores de um céu saudoso de outras vidas.
Saltar nunca foi problema.
O medo está no que vem depois da queda:
água entrando pelos ouvidos e nariz,
o corpo impotente se chocando contra as pedras.
Você saltou, eu saltei.
Pensar demais só atrapalha
e o mar brincava de nos afastar,
só pra nos jogar de novo nos braços do outro.
Quis lhe trazer pra dentro de mim.
Meu propósito e minha maldição.
Nunca escapamos de fazer planos
quando só existe passado e futuro.
As ondas quebram trazendo lembranças
de muito-tempo-atrás ou de ontem-mesmo.
Ondas mais fortes, ondas mais fracas;
dentro da cabeça ou no mar.
Se o mar arrastasse com ele o tempo,
seríamos Índico, Pacífico e Atlântico.
Da parte que está longe, mas logo chega.
Promessa de vida inteira, não mais pela metade.
e o mar brincava de nos afastar,
só pra nos jogar de novo nos braços do outro.
Quis lhe trazer pra dentro de mim.
Meu propósito e minha maldição.
Nunca escapamos de fazer planos
quando só existe passado e futuro.
As ondas quebram trazendo lembranças
de muito-tempo-atrás ou de ontem-mesmo.
Ondas mais fortes, ondas mais fracas;
dentro da cabeça ou no mar.
Se o mar arrastasse com ele o tempo,
seríamos Índico, Pacífico e Atlântico.
Da parte que está longe, mas logo chega.
Promessa de vida inteira, não mais pela metade.
Do que é meu e não me pertence
Do que sou eu quando somos plenos
Pipoca, pizza, preguiça, pôr do sol e muitamor.
em crescimento
Dos galhos secos daquela árvore
brotei eu durante o inverno.
E quando ela floriu
já meus olhos estavam secos.
Me descobri palavra
num mundo de ruídos.
Desdobrando-me de uma sílaba,
como pequena que já fui.
Floresço hoje só pra mim.
Amanheço devagarzinho
porque o resto do mundo
pode esperar.
Talvez não mais seja força,
me torno continuidade.
Como criança que aprende a andar
e descobre que correr é melhor.
Mas não sou só uma
(soube hoje, me contaram).
Na verdade, eu sou três:
duas velhas fofocando sobre outra.
Não sou uma assim de cada vez,
eu sou as três ao mesmo tempo,
Sou tronco, galhos e folhas;
fluindo em toda direção.
brotei eu durante o inverno.
E quando ela floriu
já meus olhos estavam secos.
Me descobri palavra
num mundo de ruídos.
Desdobrando-me de uma sílaba,
como pequena que já fui.
Floresço hoje só pra mim.
Amanheço devagarzinho
porque o resto do mundo
pode esperar.
Talvez não mais seja força,
me torno continuidade.
Como criança que aprende a andar
e descobre que correr é melhor.
Mas não sou só uma
(soube hoje, me contaram).
Na verdade, eu sou três:
duas velhas fofocando sobre outra.
Não sou uma assim de cada vez,
eu sou as três ao mesmo tempo,
Sou tronco, galhos e folhas;
fluindo em toda direção.
bagunça de nós
Nós
Nós somos uma bagunça
Somos roupa no chão do quarto
Somos louça suja na pia
Somos
Às vezes dois, às vezes três
De vez em quando, um
Que de tão juntos viram meio
Infinitos
Embalados no mesmo ritmo
Sem saber onde começa ou termina
Perdidos um dentro do outro
Nós somos uma bagunça
Somos roupa no chão do quarto
Somos louça suja na pia
Somos
Às vezes dois, às vezes três
De vez em quando, um
Que de tão juntos viram meio
Infinitos
Embalados no mesmo ritmo
Sem saber onde começa ou termina
Perdidos um dentro do outro
Friday, January 30, 2015
passatempo
Passo as horas até
dormir
Os dias se arrastam
Um após o outro
Testando a minha
sanidade
Tento sair, mas ela não deixa
Me puxa de volta pra cama
- O dia está frio lá fora
Deito em seu seio e me deixo embalar
A tempestade nunca
veio
Sequer o sol deixou de se esconder
Talvez eu tenha trocado os horários
Talvez até a culpa seja minha
Talvez eu tenha trocado os horários
Talvez até a culpa seja minha
Não é educado falar
dessas coisas
Mas a vida arde em minha cabeçaTanto onda quanto partícula
Sem sentido e sem descanso
A sensação de desintegrar
me
a
pa
vora
Thursday, January 29, 2015
menina
Toda vez que a gente ia ao shopping, ela me comprava um beijinho junto com o seu sanduíche. Eu sentava no banco ao seu lado e ficava imaginando o que existia por trás daquelas paredes. O gosto daquele beijinho é o que me vem à boca até hoje toda vez que eu penso nela. Não esqueço nem o cheiro que ficava mesmo depois que eu tirava o cravo. Eu tinha o meu próprio papel naquele ritual. Parecia que partilhávamos os mesmos gostos e interesses. Durante muito tempo foi raro me surpreender com alguma incoerência.
Adorava as tardes de terça, quarta ou quinta-feira quando ela decidia que iríamos ao cinema assistir qualquer coisa. Vivemos aventuras pequenas e grandes; dividimos inúmeras gargalhadas; fomos cúmplices de uma vida inteira. Adorava também as noites em que saíamos para dançar. Ela me guiava ao mesmo tempo em que me ensinava a guiar - tanto que nunca soube dançar de outra maneira. Queríamos fazer um pique-nique no parque, mas choveu naquele dia. Acabamos comendo miojo na praia, de baixo de um lençol molhado. O vento queria nos derrubar na areia.
Com o passar dos anos, aprendi a ler seu rosto de um jeito que eu jamais conheceria outro. Os lábios apertados, perigo. O nariz franzido, carinho. Os olhos marejados faziam (fazem) o meu peito comprimir. Na verdade, não era nem difícil prever tempestades e arrependimentos. A vi ser grande e ficar pequenina nos meus braços. Sempre quis poder lhe dar mais de mim, mas isso significaria deixar de viver. Ela também sabia disso. Me detestou e me admirou quando precisei me afastar. Talvez tenha sempre tido a certeza de que eu voltaria. Fizemos planos para nós, como não poderia deixar de ser. E quando comecei a fazer planos só meus, preferi não mencioná-los, tive medo de magoar.
E ela ainda era menina quando nos conhecemos, quase sempre esqueço disso. Quase posso sentir seus medos, e recriar suas ilusões. Não tenho ideia do que faria em seu lugar. Na minha inocência e ingratidão, devo tê-la privado de muitos dos seus sonhos; mas gosto de acreditar que tivemos sonhos só nossos também.
Agora toda vez que eu vejo aquele beijinho na vitrine me dá vontade de comprar, só pela lembrança, mesmo que eu não goste mais.
Agora toda vez que eu vejo aquele beijinho na vitrine me dá vontade de comprar, só pela lembrança, mesmo que eu não goste mais.
Wednesday, January 21, 2015
se a tristeza fosse gente (de outras vidas I)
Se a tristeza fosse gente,
ela seria mulher
e seria mulher bonita.
Sedutora, mas simples.
Porque a simplicidade
na verdade é complicada.
Já a vejo em toda sua facilidade
de cabelos soltos ondulando
sobre os ombros em todas as direções.
A blusinha sem mangas,
sentada num banco
com um baseado na boca.
Já ouço sua voz grave e confortável,
carregada como o sono
que abraça o corpo cansado.
E ela é sedutora,
é difícil fugir dessa menina.
Tão difícil quanto juntar os pedacinhos e levantar.
Ela lhe faz querer ir embora,
tudo bem pode ir,
só para rir quando você voltar.
Ela já tem nome
só lhe falta descobrir
que viver é possível.
ela seria mulher
e seria mulher bonita.
Sedutora, mas simples.
Porque a simplicidade
na verdade é complicada.
Já a vejo em toda sua facilidade
de cabelos soltos ondulando
sobre os ombros em todas as direções.
A blusinha sem mangas,
sentada num banco
com um baseado na boca.
Já ouço sua voz grave e confortável,
carregada como o sono
que abraça o corpo cansado.
E ela é sedutora,
é difícil fugir dessa menina.
Tão difícil quanto juntar os pedacinhos e levantar.
Ela lhe faz querer ir embora,
tudo bem pode ir,
só para rir quando você voltar.
Ela já tem nome
só lhe falta descobrir
que viver é possível.
Wednesday, January 14, 2015
dormência
I
Queria poder guardar tudo numa caixinha.
O que há de doce e bonito,
o que há de sujo e doloroso.
Para poder não mais sentir
não precisar e não querer,
sequer lembrar.
A distância não diminui
só traz mais dor e solidão.
Tudo se faz como as lágrimas
que às vezes não consigo prender.
Me escapolem dos olhos,
entre os dedos e as palavras.
Se sentir fosse mais fácil,
não precisaria de anestesia.
Da dormência que me preenche os dias
dos sonhos em cor que iluminam noites,
fazendo da inconsciência um alívio
e a fumaça respirável.
II
Quis ver a música ecoar no vazio,
mas ele disse que o som não se propaga no vácuo.
Ficou então ela toda presa dentro de mim,
ressoando dentro das minhas paredes,
escoando por minhas veias a nossa melodia
A imaginação é uma droga.
Há dias em que me engano
e acho que consegui domar essa dor.
Mas ela sempre volta, pula fora da caixa
enquanto eu me desgasto por nós dois.
Eu choro, pra ver se sara.
Eu fumo, pra ver se apaga.
Eu seguro, pra ver se estanca.
Queria poder guardar tudo numa caixinha.
O que há de doce e bonito,
o que há de sujo e doloroso.
Para poder não mais sentir
não precisar e não querer,
sequer lembrar.
A distância não diminui
só traz mais dor e solidão.
Tudo se faz como as lágrimas
que às vezes não consigo prender.
Me escapolem dos olhos,
entre os dedos e as palavras.
Se sentir fosse mais fácil,
não precisaria de anestesia.
Da dormência que me preenche os dias
dos sonhos em cor que iluminam noites,
fazendo da inconsciência um alívio
e a fumaça respirável.
II
Quis ver a música ecoar no vazio,
mas ele disse que o som não se propaga no vácuo.
Ficou então ela toda presa dentro de mim,
ressoando dentro das minhas paredes,
escoando por minhas veias a nossa melodia
A imaginação é uma droga.
Há dias em que me engano
e acho que consegui domar essa dor.
Mas ela sempre volta, pula fora da caixa
enquanto eu me desgasto por nós dois.
Eu choro, pra ver se sara.
Eu fumo, pra ver se apaga.
Eu seguro, pra ver se estanca.
Thursday, January 8, 2015
tube
Propositadamente devagar,
nos arrastamos sobre os trilhos
Oscilamos como um só
Vibramos juntos
Balanço de um lado para outro
Seguimos a dança
Cuidado com o bêbado
que equilibrista dança junto à porta
Não obstrua a passagem
Flui a multidão
Se desdobra pelos canais
Escorre por debaixo da terra
nos arrastamos sobre os trilhos
Oscilamos como um só
Vibramos juntos
Balanço de um lado para outro
Seguimos a dança
Cuidado com o bêbado
que equilibrista dança junto à porta
Não obstrua a passagem
Flui a multidão
Se desdobra pelos canais
Escorre por debaixo da terra
Wednesday, January 7, 2015
how to
Se você me quisesse ler,
talvez até eu deixasse
só pra achar graça
de ver você se perder
nesse emaranhado de mim
Só peço
que não me leve tão a sério
não pense demais nas minhas bobagens
pois delas já me farto eu
nesse monólogo de louco
Tem coisa aqui de muitos anos
tem coisa aqui de amanhã
e é mesmo pra achar graça:
a vírgula é minha,
eu (não) ponho aonde eu quiser
O tempo passa e a gente se perde
se envergonha
se esbarra em outras versões de si
que fazem aquelas ex
parecerem brincadeira
Mas de que vale uma vida inteira pra ser lida por ninguém?
talvez até eu deixasse
só pra achar graça
de ver você se perder
nesse emaranhado de mim
Só peço
que não me leve tão a sério
não pense demais nas minhas bobagens
pois delas já me farto eu
nesse monólogo de louco
Tem coisa aqui de muitos anos
tem coisa aqui de amanhã
e é mesmo pra achar graça:
a vírgula é minha,
eu (não) ponho aonde eu quiser
O tempo passa e a gente se perde
se envergonha
se esbarra em outras versões de si
que fazem aquelas ex
parecerem brincadeira
Mas de que vale uma vida inteira pra ser lida por ninguém?
Subscribe to:
Posts (Atom)