Depois de dias de um confinamento voluntário (o ser humano é bicho engraçado), resolvi sair pra dar uma volta. Lembrei do canteiro em que vi uma senhora plantando tulipas e decidi correr até lá pra ver se elas já tinham crescido. Mas o mundo continuava igual ao que era. Ainda não havia nada das tulipas além da plaquinha torta. Aquilo me lembrou Janet.
Janet que queria ser Stein. Que chegou no primeiro dia com um capacete de filme dos anos 30 na cabeça e as bochechas muito rosadas por causa do frio. Janet que se enrolava toda vez que tirava o cachecol e punha os óculos. Janet que morre de medo de um dos filhos (adultos) ser atropelado andando de bicicleta. Me lembrou do dia em que ela, em meio a anedotas fantásticas de outras vidas, nos olhou quase com pena e disse que nada de extraordinário aconteceria com a gente hoje, e provavelmente nem amanhã. Disse que tendemos a viver as nossas vidas assim, sem brilho, numa repetição sem fim (ao menos algo é infinito).
Eu quis lhe responder que ela tinha acontecido no meu dia e aquilo já era bom o suficiente. Mas eu nunca falo nada mesmo, calada fiquei. É verdade que a maioria dos dias não tem nada de extraordinário. Mas temos sempre o vai que, o pode ser, o quem sabe. E se isso não é o suficiente pra me tirar de casa todos os dias, descubro que a repetição também tem beleza. O mesmo bom dia, a mesma música no fone de ouvido, o mesmo refrigerante com gosto de casa. Acho que no fim a gente não consegue deixar de se surpreender, de sentir, de se impressionar nem com a coisa mais certa dessa vida.
Naquele dia não tive tulipas, mas fiquei olhando os barcos no rio e os pássaros que parecem mais pipas sem se mexer no ar. Quis me convencer de que só o sol estar brilhando já era novidade o suficiente. Melhor ainda era pensar que, em casa, a mesma cama de todas as noites me esperava. Quis dar um abraço em Janet e lhe dizer que ela estava certa e duplamente errada, mas só fiquei rindo sozinha imaginando como um abraço a assustaria. Um abraço extraordinário.