Wednesday, March 25, 2015

contínuo presente

     Depois de dias de um confinamento voluntário (o ser humano é bicho engraçado), resolvi sair pra dar uma volta. Lembrei do canteiro em que vi uma senhora plantando tulipas e decidi correr até lá pra ver se elas já tinham crescido. Mas o mundo continuava igual ao que era. Ainda não havia nada das tulipas além da plaquinha torta. Aquilo me lembrou Janet.
    Janet que queria ser Stein. Que chegou no primeiro dia com um capacete de filme dos anos 30 na cabeça e as bochechas muito rosadas por causa do frio. Janet que se enrolava toda vez que tirava o cachecol e punha os óculos. Janet que morre de medo de um dos filhos (adultos) ser atropelado andando de bicicleta. Me lembrou do dia em que ela, em meio a anedotas fantásticas de outras vidas, nos olhou quase com pena e disse que nada de extraordinário aconteceria com a gente hoje, e provavelmente nem amanhã. Disse que tendemos a viver as nossas vidas assim, sem brilho, numa repetição sem fim (ao menos algo é infinito).
    Eu quis lhe responder que ela tinha acontecido no meu dia e aquilo já era bom o suficiente. Mas eu nunca falo nada mesmo, calada fiquei. É verdade que a maioria dos dias não tem nada de extraordinário. Mas temos sempre o vai que, o pode ser, o quem sabe. E se isso não é o suficiente pra me tirar de casa todos os dias, descubro que a repetição também tem beleza. O mesmo bom dia, a mesma música no fone de ouvido, o mesmo refrigerante com gosto de casa. Acho que no fim a gente não consegue deixar de se surpreender, de sentir, de se impressionar nem com a coisa mais certa dessa vida.
    Naquele dia não tive tulipas, mas fiquei olhando os barcos no rio e os pássaros que parecem mais pipas sem se mexer no ar. Quis me convencer de que só o sol estar brilhando já era novidade o suficiente. Melhor ainda era pensar que, em casa, a mesma cama de todas as noites me esperava. Quis dar um abraço em Janet e lhe dizer que ela estava certa e duplamente errada, mas só fiquei rindo sozinha imaginando como um abraço a assustaria. Um abraço extraordinário.

Saturday, March 14, 2015

à deriva

     É como a lucidez que segue a exaustão. Cada nervo está desperto, ainda que esgotado. As pontinhas formigam, o peito se abre em cores que não existem em pintura. Eu estou sempre no meio, dançando comigo mesma em três corpos diferentes. Liguei o chuveiro e deixei a água cair quente sobre os meus cabelos, mas ela não corria rápido o suficiente para acompanhar os rios que fluem dentro de mim.
      Geralmente é como mergulhar, cair no sono estando acordada. Braços abertos e olhos fechados. O tempo se fragmenta, os movimentos ficam limitados porém infinitos. Dancei sozinha sem sair do lugar. Piruetei em pensamento porque as pernas estavam muito teimosas.
       O ar começou a faltar e pensei cinco vezes até fechar o chuveiro. Abri a porta rezando pro cheiro sair. Só que eu não rezo. Nunca botei em ninguém a responsabilidade sobre a minha vida. Eu que me vire. Encarei meu reflexo no espelho e ela sorriu pra mim. Acendi uma luzinha, escancarei a janela e fechei as cortinas. Não queria me dividir com ninguém. Lembrei do celular, vai que, né. A cama pareceu muito longe e o chão me abraçou. Meus pensamentos de ego inflado ganham autoridade e acham que podem mandar no resto do corpo. As coisas deixam de ser coisas e viram linguagem. Brincar com os códigos me assusta um pouco. Eu fico tão linguista.
     Pensei em me levantar, mas logo esqueci enquanto me levantava. Pulei na cama com os cabelos ainda molhados e me deixei à deriva sentindo o mundo girar devagarinho ou muito rápido dentro de mim.

Friday, March 13, 2015

passarinho

Um dia eu quis me passarinhar
Só pra poder voar pra sua janela
Passar pelo buraco da rede
E te espiar enquanto dormisse

Pra poder rir mais uma vez
Da sua boca aberta
Dos seus olhos que me enduvidam
Do seu cabelo emaranhado

Pra poder sentir inveja
Do travesseiro que você não larga
Do lençol que lhe abraça
De quem pode lhe cheirar

Pra poder cantar e lhe acordar
E ver a sua cara de sono
E ouvir você resmungar
E virar pro outro lado pra dormir de novo

Mas eu não sou passarinho
E a sua janela é muito alta
E o seu prédio é muito longe
E isso era pra ser um poeminha feliz

Monday, March 9, 2015

brechó do que pode ser

Tô vendendo planos
para-sempre e para-agora.
Nessa agonia de não caber dentro de mim,
de transbordar o tempo todo.

Alguns são de se sonhar só,
outros são de sonhar junto.
Um emaranhado de vontades
que muito se contradizem.

São inúmeros, lado a lado condenados,
presos à condição de irrealidade.
Mas, de vez em quando, um escapa,
Vira gesto, vira palavra.

Do imaginário, sai de corpo nu.
Se despe de toda ilusão,
revela rachadura, manda olhar pra trás.
Só o incerto lhe envolve.

E se o querer for de verdade,
e eu quiser mais que ideia:
quiser carne, cheiro, voz.
Será que a gente se infinita?

Sunday, March 8, 2015

chilicando

muito leio e nada escrevo,
nada crio e nada cresço.
(odeio rima)

o processo todo é exaustivo:
pesar cada palavra,
repetir
uma por uma em minha cabeça
até encontrar um som
que me satisfaça.

queria escrever como quem transa.
sem pensar, só sentir.
ou então pensar no outro,
pensar com o corpo.

até que cresço.
mas cansada. exausta de mim.

Thursday, March 5, 2015

ter e desejar

Desacelera comigo
Viaja comigo
Me faz cafuné no meio da tarde
Canta pra mim, mesmo que eu ria
Dança comigo pela sala
Me deixa deitar no seu peito e lhe sentir respirar
Cheira o meu pescoço e me toca só com a boca
Faz carinho nas minhas costas
Ri comigo de qualquer bobagem
Me lembra - mais uma vez - do quanto a gente se gosta
De como a gente é bom no que faz
Anda devagar ao meu lado
Me segura pra eu não cair
Dorme comigo
Apaga a luz antes de deitar