Tuesday, February 16, 2010

Cartas Errantes III

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Pequenino,

Não quero que pense que me esqueci de você – de modo algum! Esta carta apenas me levou um pouco mais de tempo para ser composta... Antes de responder à sua carta propriamente, quero lhe contar um sonho curioso que ocupou meus pensamentos em algum momento da noite passada. Talvez por causa do livro que eu lhe falei a respeito, - e que, por sinal, acabei há poucas horas – foi um sonho atípico, fantasioso. Eu sequer exercia um papel significante nele, apenas observava e, como narradora, adivinhava os sentimentos das personagens. Ele começava mais ou menos assim:
“A clareira era pequeníssima, mas à frente se estendia uma trilha igualmente bela. Diriam que as flores delicadas que se estendiam por ela vibravam nas cores mais variadas, entretanto, agora, todas as tonalidades estavam amenizadas pelo tom azulado daquele crepúsculo. A noite nunca chegava. Parada ao início da trilha estava uma jovem de cabelos compridos e ondulados. Seus cabelos claros, neste momento, faziam-se escuros. Os punhos fechados deixavam salientes os nós dos dedos e encerravam dentro dela suas emoções. Os mesmo olhos que escondiam segredos exerciam em qualquer um os mesmos efeitos. Suas íris eram contornadas por um verde escuro que se aquecia até encontrar a pupila, ganhando tons de um marrom muito claro. Com elas, podia enxergar as gotas de água que a umidade do ar formara nas plantas. Contudo, nada daquilo lhe servia agora.
Planejara cada passo a ser tomado. Antecipara as paisagens a serem vistas e as sensações que cada uma produziria em seu corpo. Pensava nas pessoas que conheceria e como se adequaria para viver entre elas sem causar incômodo e arrancando até um pouco de prazer da situação. Um pouco não, muito. Ela queria aquela nova vida por inteiro. Como o ancião cuja saúde fora debilitada e lhe resta apenas esperar pela paz, ela tinha certeza que seu destino a aguardava para ser cumprido. Desejara seguir aquele caminho com tamanha sede que ao – finalmente – senti-lo em suas mãos, hesitara.
Passos cautelosos – e não delicados – levaram-na para frente. À medida que se deixava penetrar na floresta, caíam por terra as suas expectativas. Sua visão se tornou turva e, de repente, desejou retroceder, mas algo lhe impedia de virar para trás. Não sabia o que era e teve medo. Medo de que fosse tarde demais para admitir a sua derrota – ela ainda não lutara. A verdade era dura e o arrependimento por todas as coisas que deixara de fazer se abatia sobre a pequena implacavelmente. Esquecera seus amigos e sua família na hora de fazer planos. Nunca questionou sua capacidade de viver sem eles. A filha pródiga não tornaria a casa dessa vez. Partiria para sempre, admitindo que errara. Mas era tarde demais até o arrependimento.
Sentiu algo lhe golpear na face e, por reflexo, levou a mão ao local atingido. O corte não fora profundo, mas um filete de sangue escorria por sobre sua bochecha. Desejou um espelho para melhor avaliar o arranhão, mas logo riu por saber impossível encontrar algum ali. Carregaria a partir daquele dia a marca sutil, porém notável, das decisões tomadas cegamente. Limpou a mão suja de sangue no vestido e pretendia seguir em frente quando, novamente, algo lhe deteve. A dor dentro dela era tão grande que a fez curvar-se para frente, os braços envolvendo seu próprio corpo. Estava só. Era uma estranha sensação que em vez de lhe preencher o coração e torcer o estômago, retirava-lhe todas as forças, esvaía-lhe o sangue. Tudo girava ao seu olhar. As árvores cujos troncos estiveram cobertos de um musgo verde durante anos agora derretiam em ondas constantes e perturbadoras. Um calafrio lhe subia a espinha e seu cérebro parecia ser comprimido. Ela respirava com dificuldade, até que o pânico foi além do que podia suportar.
Durante longos segundos, nada viu se não a escuridão. Contemplou os resquícios de luz que brilhavam projetados por sua retina nas pálpebras fechadas. Podia sentir a grama espetando suas bochechas e não se surpreendeu ao deduzir o que acontecera. Pôs-se de pé rapidamente e recomeçou a andar. Poder-se-ia dizer que para alguém de fora, a cena permanecia inalterada, como se o desmaio fosse apenas um breve intervalo e ela agora retomasse sua jornada. Mas sob a sua perspectiva, tudo estava diferente. A noite finalmente chegara para ela. Tentava, inutilmente, ver as árvores em meio às sombras que se formavam. Girava no escuro como um planeta satélite sem seu ponto de equilíbrio, sem direção. Aos tropeços, ela seguiu pela trilha. Pedras e galhos na trilha lhe machucavam os pés, porém, já não era capaz de reagir. Não via nada, não sentia.
Outro par de braços agarrou os seus e uma voz firme soou ao longe, mas ela preferiu ignorar. Afinal, o que haveria de ser tão importante? Nada. Os mesmos braços tentaram envolvê-la e, cegamente, ela repeliu-os. O medo a assolava novamente e sua respiração voltou a falhar. Tateando no desconhecido, buscando um lugar para se apoiar. O vento sibilou fortemente por entre as árvores derrubando folhas mortas, chuva se aproximava. Pouco a pouco, a audição também se fora. Era como se estivesse submersa em petróleo líquido e algo lhe puxasse cada vez mais fundo. Gradualmente, suas forças cediam. Faltava pouco para que se afogasse. Ela que um dia fora bela, hoje trazia as feições contorcidas, apáticas, inexpressivas. Aqueles mais fortes que os seus lhe agarraram com firmeza e puxaram para o indefinido. Cansada como se não dormisse há semanas, ela decidiu se entregar à superioridade daquele que lhe dominara. O torpor era tentador demais para que pudesse resistir. Trôpega, apoiou-se contra um corpo quente que lhe envolvia e tentava acompanhar o ritmo de seus passos ou, ao menos, sentir as batidas de um coração que já não podia ouvir. Seria incapaz de dizer por quanto tempo andaram daquela maneira, mas antes que pudesse perceber, o restante de seus sentidos falhou e a inconsciência foi aceita de bom grado”
.
Querido, espero não lhe confundir ou atrapalhar, mas creio ter me excedido na narração deste devaneio. Duvido que a história da pequena aventureira termine assim – fato. Entretanto, deixarei o final para outra hora, pois é necessário lhe responder devidamente.
Não é meu desejo ultrapassar os limites da sua vida pessoal, mas – se possível – peço que me diga o que tanto o aflige para que assim lhe possa oferecer ajuda. Deduzo que o problema parta de seu coração – eles quase sempre vêm de lá. Então, sem saber realmente o que acontece, tenho apenas um comentário a lhe fazer. Muitas pessoas passarão por nossas vidas e é necessário aprender a deixá-las partir. Entretanto, aquelas que valem a pena, pessoas especiais mesmo, hão de permanecer – vivas ou mortas. A saudade não é um mal necessário, mas é um com o qual devemos aprender a conviver. E é com segurança que afirmo: A dor vai passar. Ela sempre passa. E com você, não será diferente. Resta-nos apenas aguentar. Aguente firme, pequenino, pois de você e do seu bem estar depende a felicidade de muitos outros – inclusive a minha.
Agora, tenho que ir.

Fique bem, L.

1 comment:

Matheus Marques said...

http://denovocaraspalidas.blogspot.com/

:*
você me faz bem!