Sunday, February 28, 2010

Cartas Errantes V

Cartas Errantes IV

Pequenino,

Cobro mais uma vez da sua paciência e sei que você não me negará o perdão. Ando tão ocupada nessas últimas semanas... Envergonho-me ao confessar que os únicos momentos livres do trabalho que tenho são dedicados ao meu sono. Ah, como sou preguiçosa! Quisera eu ter maior disposição para enfrentar os infortúnios da vida, hahaha. Você não acreditaria na quantidade de livros que tenho que ler. Creio ter-me referido ao último como um “paciente”, mas logo lhe esclareço. Não sou médica e nem gostaria de ser. Não há em mim a menor vocação para tratar de problemas fisiológicos. Até mesmo a psique é mais minha amiga...
De qualquer maneira, angustiou-me imensamente esse curto período durante o qual não lhe escrevi. Talvez à medida que nos correspondemos, eu esteja conversando mais comigo mesma do que lhe dando atenção. Por isso, sou-lhe grata e, ao mesmo tempo, peço que me desculpe. Não pretendo me demorar mais, nada de lamúrias, vamos à sua carta.
Que carta deliciosa! Percebo o quão facilmente sou levada por suas palavras e não posso me queixar. É bom ter alguém disposto a nos ceder uma palavra de carinho nas horas mais insultadas, assim, gratuitamente. Mesmo que não concorde totalmente com a forma eloquente que você descreveu a minha história, alegro-me ao saber que os detalhes da interpretação não lhe escaparam. Como quanto à incerteza da menina sobre o seu futuro. A mistura de medo e ansiedade de cruzar aquele caminho. E, finalmente, o arrependimento pelo tempo perdido, a invalidez daquele momento por ela estar só. Você é doce ao se declarar a minha protagonista e confesso que ri alto ao ler o seu grito de desespero. Posso lhe ver claramente fazendo isso.
A Noite é realmente uma metáfora à solidão que se apodera da pequena indefesa. À sua volta, tudo continua claro, vivo, intocado. Porém, aos seus olhos, tudo aquilo se foi. Alguém a agarra, tentando ajudá-la, mas o pânico já lhe tomou o juízo e ela perde o controle. Não estou muito certa de que rumo a história tomará, mas creio que não me prolongarei muito mais. É necessário por um fim a essa loucura! Enviar-lhe-ei uma cópia completa dela quando estiver pronta.
Agora, posso lhe falar o que tanto me tem afligido ultimamente.
Como anda, meu querido amigo? Espero, sinceramente, que eu coração lhe tenha cedido alguns momentos de paz, finalmente. Não sou audaz o bastante para afirmar lhe conhecer tanto assim, mas as suas sutilezas, o seu modo dócil o torna fácil de ler, pequenino, e isso é bom nas pessoas. Existem aqueles – e aquelas, principalmente – que tentem manter algo para si, uma aura de mistério que – quase sempre – se mostra superficial e tola. Contudo, não me leve a mal, exibir-se demais também está fora de questão. Todos merecemos guardar nossos segredos, afinal, é delicioso rir de algo que só você sabe.
Meu dia hoje foi interessante. Não encontrando um livro que eu queria, decidi procurá-lo na internet. Agora, passo meus dias lendo na frente do computador. Muitos dos que passam por mim e me vêem inerte em frente à tela me crêem desleixada, como se estivesse gastando o meu tempo vendo trivialidades. Infelizmente, meus amigos, eu estou lendo um livro como qualquer outro de conteúdo relevante – não que eu vá me dar ao trabalho de lhes dizer isso realmente. Nunca refletira a respeito, mas identifico aí um traço curioso da minha personalidade – além da minha mania de fazer auto-avaliações constantes e, por vezes, imparciais. Isto deve ter algo a ver com o perfeccionismo e a minha capacidade de divagar sobre milhares de assuntos a partir de um. Então, voltando. Desde pequena criei o costume de simplesmente deixar aquelas perguntas mudas sem resposta – como no caso do computador. Permito eu as pessoas tirem suas próprias conclusões quando não as considero dignas de uma explicação decente ou quando não encontro meios de me expressar de forma apropriada. Penso muito de mim às vezes, não é? Meu Deus, hahaha...
Sinto mais uma vez pela demora em lhe responder e, agora, ainda mais pela pequena extensão dessa carta. Espero que suas feridas sarem cada vez mais rapidamente. Tenho saudades, muitas.

Carinhosamente, L.

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