Toda vez que a gente ia ao shopping, ela me comprava um beijinho junto com o seu sanduíche. Eu sentava no banco ao seu lado e ficava imaginando o que existia por trás daquelas paredes. O gosto daquele beijinho é o que me vem à boca até hoje toda vez que eu penso nela. Não esqueço nem o cheiro que ficava mesmo depois que eu tirava o cravo. Eu tinha o meu próprio papel naquele ritual. Parecia que partilhávamos os mesmos gostos e interesses. Durante muito tempo foi raro me surpreender com alguma incoerência.
Adorava as tardes de terça, quarta ou quinta-feira quando ela decidia que iríamos ao cinema assistir qualquer coisa. Vivemos aventuras pequenas e grandes; dividimos inúmeras gargalhadas; fomos cúmplices de uma vida inteira. Adorava também as noites em que saíamos para dançar. Ela me guiava ao mesmo tempo em que me ensinava a guiar - tanto que nunca soube dançar de outra maneira. Queríamos fazer um pique-nique no parque, mas choveu naquele dia. Acabamos comendo miojo na praia, de baixo de um lençol molhado. O vento queria nos derrubar na areia.
Com o passar dos anos, aprendi a ler seu rosto de um jeito que eu jamais conheceria outro. Os lábios apertados, perigo. O nariz franzido, carinho. Os olhos marejados faziam (fazem) o meu peito comprimir. Na verdade, não era nem difícil prever tempestades e arrependimentos. A vi ser grande e ficar pequenina nos meus braços. Sempre quis poder lhe dar mais de mim, mas isso significaria deixar de viver. Ela também sabia disso. Me detestou e me admirou quando precisei me afastar. Talvez tenha sempre tido a certeza de que eu voltaria. Fizemos planos para nós, como não poderia deixar de ser. E quando comecei a fazer planos só meus, preferi não mencioná-los, tive medo de magoar.
E ela ainda era menina quando nos conhecemos, quase sempre esqueço disso. Quase posso sentir seus medos, e recriar suas ilusões. Não tenho ideia do que faria em seu lugar. Na minha inocência e ingratidão, devo tê-la privado de muitos dos seus sonhos; mas gosto de acreditar que tivemos sonhos só nossos também.
Agora toda vez que eu vejo aquele beijinho na vitrine me dá vontade de comprar, só pela lembrança, mesmo que eu não goste mais.
Agora toda vez que eu vejo aquele beijinho na vitrine me dá vontade de comprar, só pela lembrança, mesmo que eu não goste mais.
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