Saturday, February 28, 2015

das viagens chatas

Te vi flutuar no vazio.
Astronauta com cara de bobo
ao perceber que o mundo inteiro
cabe na pequeneza dos seus olhos.

Se aproximava aos saltos
e já avistava a nossa rua.
Rompeu barreiras em sua queda lenta.
Incendiou a atmosfera da varanda.

Esquecemos a porta aberta
e deixamos uma mosca entrar.
Sua camisa ondulava no ar
que o riso me roubava.

Na noite estrelada da parede do quarto
ela viu movimento, adivinhou ventania.
O azul se tornou onda, o amarelo, explosão.
Dormia de olhos abertos, mesmo sem sono.

Ela fragmentou palavras
e descobriu que primeiro tudo é verbo.
Sentiu o gosto de cada letra,
ouviu amplificada a sua própria voz.

Seu coração dispara em pensamento,
as pernas pedem para crescer,
o cérebro também sente cócegas,
a boca seca, o ar é rarefeito.

A barraca virou barco,
o quarto virou casa,
o universo grande demais,
talvez a gente seja mesmo consciência.

No comments: