Naqueles dias de trinta e cinco horas a gente fazia o possível pra ficar bem. Acordei meio perdida; o sol me chamava por trás das cortinas azuis. Tentei achar uma posição confortável pra voltar a dormir, mas não adiantava. Você já estava acordado; lhe dei bom dia e me enterrei na sua bochecha. Ficamos preguiçando na cama por um bom tempo; disso a gente entende bem. Rolei pra um lado e pro outro enquanto a gente trocava umas palavras tortas. A cama era pequena demais pra nós dois e eu não consigo ficar parada. Quando a gente finalmente levantou pra tomar café, já eram quase onze. Você ria da minha preguiça, mas também não queria sair de casa. A gente podia pedir comida, só mais uma vez...
Trouxe o leite pra cama e comemos em silêncio. Fiquei lhe assistindo passar um monte de fotos antigas no celular, sem olhar nenhuma direito. No banho a gente se atrapalhava com a falta de espaço e ria brincando de passar sabonete no outro. Não lembro a música que cantamos (nosso repertório é muito eclético), mas ainda ouço a sua voz de quem perdeu a vergonha e ainda lhe vejo dançar com os punhos fechados na frente do peito. Ainda tem sabão no braço, amor. Limpou o umbigo? O banheiro era pequeno, mas a gente dava um jeito. As latas de desodorante vazio ainda ficavam esquecidas sobre a pia. Intimidade até que tem graça.
Durante a aula fiquei lembrando da vez que fomos acampar. Você de pé no ferry vendo o dia nascer enquanto eu lhe assistia sonolenta do banco do carro. Gente estranha pra gente teorizar. Só a nossa barraca naquele gramado - às vezes eu ficava com medo de noite. Mesmo sendo só dois, a gente tinha sido muito feliz. Crianças brincando de ser gente grande. Sendo perto ou longe da praia, com sol ou com chuva. A música no carro era muito boa. Os banheiros eram muito longe e o resto é segredo.
Assistimos um filme que eu sabia que você não ia gostar, mas que mesmo assim tinha paciência de sentar comigo. Quando ficava muito chato, você me fez carinho me chamando pra um beijo. Eu ri. Já de tardinha, sentados num banco olhando pro nada, fizemos planos pras horas, pros dias e pros anos seguintes. Eu queria um cachorro, você disse que me dava um peixe. Você queria ver um show, eu já estava pensando em comprar os ingressos. O silêncio nos engolia de vez em quando. No que você tá pensando?
Voltamos pra casa andando pelas ruas menores, dar a volta valia a pena. Seus dedos suavam e ficavam gelados entre os meus, mas você apertava mais forte pra ter certeza que eu não ia escorregar. Não deu pra ver o sol se pôr no mar naquele dia. A nossa coleção precisava ser renovada em breve. Passamos as horas fazendo cócegas e falando besteira. Mais tarde a gente ia fumar um e deitar pra sonhar junto, só que à meia noite, o sono me venceu.
Desejei boa noite, lhe dei um beijo e virei pra dormir. Do outro lado do mundo, você acordava.
No comments:
Post a Comment