entrou pela porta que estava aberta e virou à direita. ia passar direto, mas deu a volta e abriu a porta verde que mais parecia parede do que porta. subiu os degraus estreitos sem ver o que vinha depois da curva. se esbarrou com umas três pessoas que se apertavam pelo corredor cheio de sombra. seguiu em frente e desceu a escada em caracol até a frente do elevador que nunca tinha funcionado. passou por salas vazias e outras com cara de importante. os degraus rangiam sob suas botas úmidas.
o sistema de aquecimento não era dos melhores, mas queimou sua mão em um radiador tão perdido quanto ela. as luzes gostavam de ascender e apagar sem pedir permissão. talvez fossem os fantasmas do velho hotel pedindo para não serem esquecidos. deve ser muito triste desaparecer. muito triste ou muito libertador. brincar pelos corredores sem se preocupar em fazer as tábuas do chão ranger. talvez nada fosse de todo bom.
no departamento de filosofia tinha a foto de um anão na janelinha. quis saber o que ele estava fazendo ali, como quem encontra um professor no shopping, mas continuou. curva para a esquerda, mais três portas e um corredor. subir dois degraus, desviar das pessoas, descer uma rampa. no meio da escada tinha um banheiro, achou aquilo engraçado. pelo menos um banheiro, tinha.
acreditava que aquele prédio fora um dia um hotel. imaginou em que parte do hotel estaria. com certeza não eram quartos de hóspedes. se fossem, aquele hotel era muito ruim. se estivesse na cozinha, daria muito trabalho de levar e trazer os pratos, a comida esfriaria no caminho. só via banheiros em todos os cantos. banheiros propícios a brincadeiras que ninguém admitia imaginar.
espiou pela janelinha na porta de uma das salas. quem tinha tido a ideia de colocar janelas em portas? elas deviam ser uma coisa ou outra. portas deveriam ser para esconder e janelas para mostrar. mas aquelas portas-janelas pedras-e-plumas eram muito estranhas. o chão da sala também não era só chão, era um emborrachado pras pessoas da moda tirarem os sapatos e se sentarem com as pernas cruzadas.
chegou no outro prédio, desceu as escadas interrompidas e saiu pela porta do terceiro andar. virou a esquerda na sala de orações. desviou o olhar da janela-porta por um respeito qualquer à religião dos outros. seguiu em ziguezague pelos corredores com luz de hospital. abriu a porta do auditório, subiu até a terceira fileira pra não ter que pedir licença a ninguém. sentou e olhou o papelzinho amassado com seus horários daquele dia. estava no lugar errado.
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