Monday, April 2, 2018

Sintonia

Agradeço
Aos ventos do sul
Que lhe trouxeram a mim
Sem volta, apenas chegada
Como nunca antes suspeitara

O reencontro
Se tornou descoberta
Nova chance de conhecer
Sem pedir licença
Nova eu, novo você

Sorte a nossa
Vibrar na mesma frequência
Piadas bobas e riso farto
Sem esforço, mas com cuidado
Dia a dia, lado a lado

Enlace de corpos
Trocando vida
Entre as pedras do vale
Sem pressa, só certezas
Deitadas preguiçosas na areia da praia

Sunday, August 20, 2017

de mim para mim mesma

Por que?
Por que não?
Why can't I do what I must?
Porque ele disse?
I guess not.

From me to myself
Dona de mim
Pode olhar
Don't touch.
(Ok, just a little).

"uma vida inteira para ser lida por ninguém?"
Sim.
Uma vida inteira para crescer.

Friday, August 11, 2017

Oração à Tempestade

Quando a cidade se apaga
E a rua se cala
Janela aberta
Som de chuva na noite
Ouço o vazio

Rezo para ninguém
Por quem não tem onde
Peço misericórdia
Perdoe, mãe terra
O egoísmo dos homens

Perdoe toda dor que lhe é afligida
Que não castigue aqueles que já sofrem
Nas mãos dos mesmos senhores de ontem

Paredes de papel
Levadas pela água
Terra desliza
O vento açoita a pele
Eparrei oyá

Semente de dias melhores

Eu galhos secos
Eu folhas caindo
Eu flores murchando

Raízes no chão
Fincadas bem fundo
Se alimentando da terra

Água para fluir
Sol para dar vida
Vento para devolver

Primavera

Renasço
Cresço
Floreço

Tuesday, March 22, 2016

Apertadinho (ou Meu travesseiro cansou de mim)

Eu queria deitar assim
Derretida no seu peito
seus braços ao meu redor
Bemquente
Apertadinho
Que nem esse poema

Tuesday, December 8, 2015

Onze-doze

Subordinada a mim mesma
Às minhas ideias,
Meus sentidos,
Meus medos
E minhas nóias.
Ao meu corpo.

Somos matéria
Sem espaços vazios
Dividindo fluidez
Você comigo
Feliz
tudo brincadeira

Friday, November 27, 2015

Insone

Eu quero dormir
Estou tentando, de verdade
E sem remédio dessa vez
Sem neblina
Só o peso do meu corpo
Cansado sobre o colchão

Mas o coração inquieta  
Talvez as cicatrizes já sejam mais
Do que eu consigo aguentar
Talvez a culpa não seja minha
A culpa não é minha.
Talvez não seja de ninguém

A cabeça manda,
mas ele não vem

No passa nada
Não se preocupa não

Vou tentar dormir aqui
De novo
                                           

Thursday, October 29, 2015

Rosa-estrela

A vida tem dessas
De uma hora estar ali
E depois não mais
Como aquela beleza solar
Que alguém nos tirou

Ela tinha dessas
De sempre atrasar
O mundo não ia sair do lugar
Por uns minutinhos a mais    
E a gente esperava sem dor    

Ontem foi,
hoje não mais
Tento colar os pedaços
Do que não vai mudar nunca
E do que nunca mais será

E pro que não tem resposta,
A gente canta
De quem não vai voltar,
Tenho saudade

Saturday, September 12, 2015

indo

Sempre seremos
Assim patéticos

Não adianta
Querer o corpo
Querer alguém
Querer que passe

Seguiremos iguais
Cansados de nós
Cansados dos outros
Tentando não cansar

Sobrevivendo    

Saturday, August 29, 2015

À minha melhor,

      A minha amiga ia ser médica. A minha amiga ia ser médica. A minha amiga ia ser médica.
      Ela ia fazer o bem de tanta gente.
     Ela ia envelhecer e ficar igual à mãe. Ela ia ser madrinha de qualquer coisa que eu tivesse. Ela ainda tinha tantas gargalhadas guardadinhas só esperando. Ela ia passar na minha casa e nós íamos falar de dietas enquanto comíamos chocolate. Ela ia casar ou se separar e namorar de novo, quantas vezes ela quisesse. Ela ia sempre tomar a iniciativa. Ela ia correr, dar um mergulho e tomar uma água de coco todos os dias, se pudesse. Ela ia voltar a surfar um dia, eu acho. Ela ia passar por muito perrengue e eu me sentiria culpada por não poder fazer mais. Ela ainda ia corrigir muita gente que escreve seu nome com um ene só. Ela ia pedir o relatório completo de todas as vezes que eu fosse a uma consulta, por mais besta que fosse. Ela ia passar mais um monte de noites sem dormir tomando café e estudando pra prova. Ela ia também dar muitos cochilos durante a tarde e principalmente antes de sair à noite. Ela sempre ia chegar atrasada nos meus aniversários. Eu ia achar graça todas as vezes que ela me contasse os casos mais nojentos achando super interessante. Ela ia sentar no ponto de ônibus e conversar com qualquer um que sentasse ao seu lado. Ela ia conversar tanto com tanta gente e fazer o dia de qualquer um melhor. Ela ia me ligar qualquer dia pra falar besteira, só porque tava afim. Ela ia curtir muitos carnavais dançando na rua. Ela ainda ia me ouvir reclamar muito da vida. Ela ia conhecer o mundo. Por obrigação, ela ia visitar o meu primeiro apartamento e porque era linda, levaria um bolinho pra gente comer. Eu visitaria o dela também e a gente ia falar do passado e de como é engraçado ver os outros crescendo. Ela ia me abraçar da próxima vez que nos encontrássemos. Eu ia sentir o cheiro do seu cabelo e abraçá-la bem apertado.
     Eu não vou mais ver a minha amiga. E ela não vai ser médica como tanto queria.

Dói tanto.

Thursday, August 20, 2015

quanta besteira, menina

Respira fundo
Respira leve pra ninguém ouvir
Alivia dores no chão do quarto
Se faz de morta pra ninguém te perturbar
e pra não perturbar ninguém
que o tempo se arrasta,
como areia molhada debaixo das ondas
quebrando impotente debaixo dos pés

E o aperto no peito
pode sim ser passageiro
e pode não ser
Deve ser só impressão
Não deve ter tanta importância
- cuidado pra não escapar -
Se tiver, deixa de ser
Você já sabe o que vão dizer
ou o que não vão

O que serviu pra um, não serve pra outro
O que agrada a todos, não me serve mais
Que seja tudo fantasia, por favor
Enquanto isso,
fica caladinha,
bem comportadinha,
sem incomodar.

Sunday, August 16, 2015

el general

Não é sempre que eu tenho paciência pra García Marquez, não é sempre que ele tem paciência pra mim. A gente se entende na nossa solidão milenar, mas eu sempre o perco na minha ansiedade. Corro em círculos procurando a saída do seu labirinto, mas o general anda vagaroso, sem pressa, enfermo de sua glória que lhe esvai a vida.

Wednesday, August 12, 2015

gravidade e a falta de

Continuamente presa à terra
Sinto ela me querendo à distância
Me puxando cada vez mais perto
Força dentro de mim
Me atraindo sem parar

Gosta de brincar com meus sentidos
Me deixa tonta, me joga no chão
E mesmo assim nunca é o bastante
Me quer sem roupa, de olhos fechados
Oscilando em fluidez

Sempre mais forte, sempre pra baixo
Escorro sem parar
Como o vidro nos meus sonhos
De tão intenso reflexo, analítico
Em todas as cores e em cor nenhuma

Queimo
Fogo na terra, brotando da poeira
Das folhas secas em marrom e amarelo
Craquelando do céu ao chão, de ponta-cabeça
Sem jamais perder raiz

Tuesday, August 11, 2015

de tanto não parar

Só vou me deixar roubar
Se me levar pra ver o mar
pular comigo pra dar sorte
e ver o dia amanhecer

Quem sabe o universo ouve
o seu pedido tão bonito
mesmo que assim, sussurrado
bem no pé do meu ouvido

Às vezes faço que não ligo
pra que ele se chegue mais
Olho de canto de olho
só esperando que me chame

E essa nossa ciranda é uma confusão
de não parar e não seguir
mas eu não me importo de dançar
vai ver que um dia a gente chega

Friday, April 17, 2015

Tamed

Uma, duas, três
voltas de corda
- Firme? Domada
Caged
Trapped
Tamed

Tira
Põe de volta
Aperta o nó
Morde aqui

Quero me perder
Mas só consigo me prender

Vistos de longe, somos nada
No flash forward, somos nada
Desfecho da vida:
nada

Just passing through
Não importa o quanto tente
Rói os dedos pra ver se solta

Presa num emaranhado de troncos
- ou sonhos -
Insustentáveis,
Demasiado frágeis
Imitando floresta no deserto do real

Wednesday, April 15, 2015

norfolk building

    entrou pela porta que estava aberta e virou à direita. ia passar direto, mas deu a volta e abriu a porta verde que mais parecia parede do que porta. subiu os degraus estreitos sem ver o que vinha depois da curva. se esbarrou com umas três pessoas que se apertavam pelo corredor cheio de sombra. seguiu em frente e desceu a escada em caracol até a frente do elevador que nunca tinha funcionado. passou por salas vazias e outras com cara de importante. os degraus rangiam sob suas botas úmidas.
    o sistema de aquecimento não era dos melhores, mas queimou sua mão em um radiador tão perdido quanto ela. as luzes gostavam de ascender e apagar sem pedir permissão. talvez fossem os fantasmas do velho hotel pedindo para não serem esquecidos. deve ser muito triste desaparecer. muito triste ou muito libertador. brincar pelos corredores sem se preocupar em fazer as tábuas do chão ranger. talvez nada fosse de todo bom.
    no departamento de filosofia tinha a foto de um anão na janelinha. quis saber o que ele estava fazendo ali, como quem encontra um professor no shopping, mas continuou. curva para a esquerda, mais três portas e um corredor. subir dois degraus, desviar das pessoas, descer uma rampa. no meio da escada tinha um banheiro, achou aquilo engraçado. pelo menos um banheiro, tinha.
    acreditava que aquele prédio fora um dia um hotel. imaginou em que parte do hotel estaria. com certeza não eram quartos de hóspedes. se fossem, aquele hotel era muito ruim. se estivesse na cozinha, daria muito trabalho de levar e trazer os pratos, a comida esfriaria no caminho. só via banheiros em todos os cantos. banheiros propícios a brincadeiras que ninguém admitia imaginar.
    espiou pela janelinha na porta de uma das salas. quem tinha tido a ideia de colocar janelas em portas? elas deviam ser uma coisa ou outra. portas deveriam ser para esconder e janelas para mostrar. mas aquelas portas-janelas pedras-e-plumas eram muito estranhas. o chão da sala também não era só chão, era um emborrachado pras pessoas da moda tirarem os sapatos e se sentarem com as pernas cruzadas.
    chegou no outro prédio, desceu as escadas interrompidas e saiu pela porta do terceiro andar. virou a esquerda na sala de orações. desviou o olhar da janela-porta por um respeito qualquer à religião dos outros. seguiu em ziguezague pelos corredores com luz de hospital. abriu a porta do auditório, subiu até a terceira fileira pra não ter que pedir licença a ninguém. sentou e olhou o papelzinho amassado com seus horários daquele dia. estava no lugar errado.

Monday, April 6, 2015

quero

Se precisar implica
necessidade
E exclui
vontade
Então não preciso, quero
Quero muito
mas sem obrigação
Quero com cada pedacinho de mim
Quero mais
do que jamais quis qualquer coisa
Quero você
Faço questão

Friday, April 3, 2015

fuso horário

    Naqueles dias de trinta e cinco horas a gente fazia o possível pra ficar bem. Acordei meio perdida; o sol me chamava por trás das cortinas azuis. Tentei achar uma posição confortável pra voltar a dormir, mas não adiantava. Você já estava acordado; lhe dei bom dia e me enterrei na sua bochecha. Ficamos preguiçando na cama por um bom tempo; disso a gente entende bem. Rolei pra um lado e pro outro enquanto a gente trocava umas palavras tortas. A cama era pequena demais pra nós dois e eu não consigo ficar parada. Quando a gente finalmente levantou pra tomar café, já eram quase onze. Você ria da minha preguiça, mas também não queria sair de casa. A gente podia pedir comida, só mais uma vez...
    Trouxe o leite pra cama e comemos em silêncio. Fiquei lhe assistindo passar um monte de fotos antigas no celular, sem olhar nenhuma direito. No banho a gente se atrapalhava com a falta de espaço e ria brincando de passar sabonete no outro. Não lembro a música que cantamos (nosso repertório é muito eclético), mas ainda ouço a sua voz de quem perdeu a vergonha e ainda lhe vejo dançar com os punhos fechados na frente do peito. Ainda tem sabão no braço, amor. Limpou o umbigo? O banheiro era pequeno, mas a gente dava um jeito. As latas de desodorante vazio ainda ficavam esquecidas sobre a pia. Intimidade até que tem graça.
    Durante a aula fiquei lembrando da vez que fomos acampar. Você de pé no ferry vendo o dia nascer enquanto eu lhe assistia sonolenta do banco do carro. Gente estranha pra gente teorizar. Só a nossa barraca naquele gramado - às vezes eu ficava com medo de noite. Mesmo sendo só dois, a gente tinha sido muito feliz. Crianças brincando de ser gente grande. Sendo perto ou longe da praia, com sol ou com chuva. A música no carro era muito boa. Os banheiros eram muito longe e o resto é segredo.
    Assistimos um filme que eu sabia que você não ia gostar, mas que mesmo assim tinha paciência de sentar comigo. Quando ficava muito chato, você me fez carinho me chamando pra um beijo. Eu ri. Já de tardinha, sentados num banco olhando pro nada, fizemos planos pras horas, pros dias e pros anos seguintes. Eu queria um cachorro, você disse que me dava um peixe. Você queria ver um show, eu já estava pensando em comprar os ingressos. O silêncio nos engolia de vez em quando. No que você tá pensando?
    Voltamos pra casa andando pelas ruas menores, dar a volta valia a pena. Seus dedos suavam e ficavam gelados entre os meus, mas você apertava mais forte pra ter certeza que eu não ia escorregar. Não deu pra ver o sol se pôr no mar naquele dia. A nossa coleção precisava ser renovada em breve. Passamos as horas fazendo cócegas e falando besteira. Mais tarde a gente ia fumar um e deitar pra sonhar junto, só que à meia noite, o sono me venceu.
     Desejei boa noite, lhe dei um beijo e virei pra dormir. Do outro lado do mundo, você acordava.

Thursday, April 2, 2015

só mais um

- eu até leria into the wild, mas ando lendo outras coisas...
    o seu desinteresse era pungente. ele não contava dias e horas como nós. em vez disso, marcava o tempo lembrando de acontecidos. que governo estava no poder, como era sua relação com as necessidades do povo. ele fazia florzinhas de madeira com as próprias mãos e dava de presente pra qualquer moça bonita ou rapaz. ele era nada. engraçado como é o desinteresse que nos obceca (e somos todos obcecados por nós mesmos). a sua própria pretensão de parecer mais do que se é era o que me fascinava.
    a gente conversava enquanto assistia um velho passar empurrando um carrinho de mão vazio pela estrada de terra. o ar era seco, o sol era quente. não tínhamos fome, só dúvidas e nenhum propósito. éramos beat e sertão. éramos praia e asfalto, sede e furdunço.
    me disse que faria caridade, caridade de quê? num sei. ele queria ser modernoso, modernista, antropofágico. tirava fotos sem roupa, escrevia seus poemas num caderninho e fumava cigarros baratos. sua escrita era estranha - ele mostrava o caderninho pra todo mundo em troca de uns elogios vazios. a caneta preta que usava sempre borrava seus rabiscos e dificultava a leitura.
    todos os dias ele acordava e se convencia de que era bom, mas nós dois sabíamos a verdade. ninguém é de todo bom e no fundo somos mesmo meio medíocres. não sei quem era mais patético numa mesa de bar; ele fingindo entender de cinema francês ou as meninas que sempre são as mesmas brigando por atenção. eu deveria ter inveja dele e achava graça de não ter. falava de anarquia, mas dava aula de inglês pra comprar fralda pros filhos.

Wednesday, April 1, 2015

(não) arrisco dizer

Minha boca cheia de palavras
que me engasgam e me sufocam
que brincam de esconde-esconde a me torturar
não sei se digo, não sei se calo
não sei se cuspo, não sei se engulo

Presas sempre num meio-termo:
nem dentro, nem fora
nem ausente, nem presente
elas não me deixam em paz

Pior que elas brigando dentro de mim
só o silêncio do outro lado.